segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Filme Coringa e a civilização parindo a barbárie em uma gargalhada.


A violência não é algo inato ao ser humano, como é colocado pelo senso comum, e até mesmo por mentes brilhantes como a de Thomas Hobbes que via o ser humano como naturalmente violento, onde em estado de natureza era uma ameaça constante reinando a guerra de todos contra todos; daí a necessidade de um Estado forte, autoritário e legal para coibir esses instintos naturais.
A violência, assim como a política, a cultura, a arte, a culinária, a economia e o controle social são sociais. Não existe violência na natureza; um leão quando come uma zebra, ou macacos brigam por comida não são violentos, pois não existe esse conceito na natureza, assim como consciência que determinados atos são violentos.
A violência surge com a sociedade classista, com a propriedade privada, com a luta entre classes. Daí surge a dominação e exploração de uma classe sobre outras, da subordinação da mulher, crianças e idosos, assim como a escravidão. E são nessas sociedades contraditórias, conflituosas e desiguais que teremos a imposição da vontade e da força de um grupo, classe ou individuo sobre outras classes, grupos ou indivíduos, ato esse que viola a liberdade, constrange, machuca, causa danos psicológicos ou outras características da violência, como o seu extremo, ceifar vidas!
A violência, assim como a criminalidade, que pode ser ou não violenta, não surgem num espaço vazio, são realidade concretas de uma sociedade com seu momento histórico, suas características geográficas-urbana ou rural; com determinado modo de produção e reprodução da vida material com suas relações sociais de produção, Estado, ideologias, forma de justiça e controle social, “cultura” etc. Logo a violência faz parte de uma totalidade social com suas múltiplas determinações, como escrevia Marx.

Em cinco de outubro estreou no Brasil o filme Coringa. Essa obra conta a história do perturbado Arthur Fleck, interpretado magistralmente por Joaquim Phoenix. Na obra ele é um comediante frustrado que não consegue seguir a carreira cômica, e trabalha como palhaço fazendo publicidade, alegrando crianças em hospitais. No início do filme vemos o protagonista trabalhando e tendo o cartaz que segurava, enquanto dançava, sendo furtado por um grupo de garotos, ele, Arthur, corre atrás para recuperar o cartaz, mas é espancado covardemente pelo grupo. Temos aí o pontapé inicial da história para a construção da persona do vilão, que nesse filme na verdade é um anti-herói.

Apesar da violência sofrida por Arthur ser considerada o início de sua transformação, ela na verdade já começou com a decadência da própria sociedade, uma sociedade mostrada na obra como desigual, violenta, sexista; leia-se aqui a cena onde uma mulher é assediada num trem pouco antes de Arthur sofrer outro ataque, agora de um grupo de “engravatados” executivos que trabalham nas empresas Wayne, isso mesmo, do pai do futuro Batman, que no filme em questão é apenas uma criança que mal aparece na obra.
No filme fica claro que se tornou banal atos de violência gratuita contra mulheres, pessoas com deficiências mentais e/ou intelectual, que o estranho deve ser expurgado, e que a pobreza não passa de motivo de chacota entre ricos e programas de auditório, como o apresentado por Murray, interpretado por Robert De Niro.
Na obra cinematográfica Arthur é solitário, sofre de transtornos mentais e mora com a mãe, que também parece ser doente; seu corpo magérrimo e insalubre demonstra não somente ele como doente, mas uma vida social é doentia também. Para piorar, há cortes de gastos com saúde e outras áreas sociais de atendimento aos mais carente, Fleck tem seu tratamento interrompido e fica sem seus medicamentos. Como ficar lúcido quando se vivem um mundo desses?
O diretor e roteirista Todd Phillips nos seduz e convence, coloca o futuro “monstro” como carismático, temos empatia pelo sofredor, e na medida que vamos descobrindo mais detalhes da vida e do passado de Arthur ficamos mais emocionados e defensores do personagem.
O filme já começa com uma greve dos lixeiros, o filme que mostra o lado sujo do ser humano e da sociedade também mostra a decadência urbana, as péssimas condições de trabalho, a pobreza, os verdadeiros cortiços onde moram as pessoas mais simples, como Fleck.
Tudo conspira para que a violência, o caos, a “anomia” social, como diria o estruturalista Durkheim, reine e aflore no coração das trevas de Fleck. A gota d’água é o segundo atentado contra sua integridade física num trem, seguido da frustração profissional, da descoberta dolorosa de seu passado e do bullying que sofre pelo apresentador de um programa de entrevista e humor.
Nos últimos momentos do filme temos o caos instalado na cidade de Gotham City, protestos contra ricos, que são inflamados pelo assassinato de executivos num trem por um homem vestido de palhaço, o futuro Coringa.
Nos últimos minutos temos o nascimento do assassino, louco e ressentido que quer se vingar da sociedade que cuspiu, riu e o machucou; todo apoio e empatia que tivemos pelo personagem é colocado a prova, pois agora ele mata sem piedade e solta sua gargalhada aguda, o mal tem o rosto pintada, tem sua risada, mas é fruto do deboche de toda uma desgraçada, suja, doente e decadente sociedade classista.
Fica a polêmica, o mal-estar, e ficamos divididos entre condenar o ressentimento dos doentes, moribundos e pobres, como falava o filósofo Nietzsche, ou ter empatia pelo dominados, explorados e desgraçados pelo capital.
A civilização pariu de suas entranhas a barbárie! Homens perturbados como Fleck são condicionados a se tornarem psicopatas vingativos e rancorosos, atos livres e conscientes, mas que são decididos dentro da latrina social que em sua descarga descarrega essa sujeira psicótica, pobre, negra e conspurcada nas lodosas sarjetas das urbes putrefatas e animalizadas.
Ao final vemos o nascimento sangrento, violento e debochado do Joker, o Coringa, que não é simplesmente uma vítima da sociedade, ou mesmo um ladrão, sequestrador ou corrupto; é a personificação do mal, do caos, da falta de sentido dessa sociedade.
O filme se passa nos anos oitenta, anos de consolidação do Estado neoliberal, do Estado mínimo nos Estados Unidos, do aumento da criminalidade, desemprego, do encarceramento em massa. Tem tudo haver com o filme do Coringa.

Há várias referências na obra, desde Taxi Driver, clássicos dos anos setenta, passando pelo Rei da Comédia, ambos dirigidos por Matin Scorsese, que é um dos produtores de Coringa. Temos também referências a Chaplin, desde a trilha, passando pela questão do comediante e cena de filme projetado em um cinema. 

Ao término do filme ficamos tontos, enjoados, extasiados e emocionados; o filme nos faz refletir sobre o mundo onde vivemos, nossas atitudes e ações. Somos coniventes com essa barbárie que leva gente bárbara a ser violenta com outras pessoas?
O coringa não é um herói ou um monstro, é filho maldito dessa maldição que tanto os conservadores querem salvar, conservar e endeusar. Mas no fim temos que ser contra o filho que nossa civilização pariu, e abortar esse feto infortúnio que geramos. 
 


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