segunda-feira, 28 de setembro de 2009

HISTÓRIA

Um amontoado de velharias,memórias caducas, restos humanos empoeirados, sujos e mal pagos. A lama que escorre do tempo e enferruja as lembranças está por toda a parte, a tradição desfigurada, o progresso sem memória, desnorteado.

Riquezas imateriais povoam esses labirintos de pornografias, explorações, amores e paixões; reinos são erguidos, Impérios são destruidos e nós nem fazemos idéia do que está acontecendo com o já acontecido e ainda vivo, em flamas ardentes, em tempos pulsantes, em vidas humanas.

Estruturas econômicas, conjunturas políticas, mentalidades ideológicas, pensamentos psicológicos, visões demoníacas, guerras santas, sociedades alternativas. Ditaduras civis, combates militars, golpes militares, arte burguesa, reação proletária, passado planetário, identidade regional, mundo globalizado.

Ação em câmera lenta, mudanças tecnológicas a todo o tempo, política corrupta, cidadãos honestos alienados, ações terroristas, democracias utópicas, liberalismos fascistas, socialdemocratas realistas, homens no poder, mulheres em ascensão, sexos a flor da pele, revoluções conservadoras, anjos barrocos.

Gritos de dor, suspiros de amor, tesão homossexual, loucura psicodélica, rock total, funk no morro, sertanejo moderno, clássicos trágicos, sartres existencialistas, hermenêuticas comunistas.

O tempo se fecha, lutas explodem, memórias são escritas, ciências são capitalistas, identidades forjadas, o sentido da vida negado. Sem rumo, futuros traçados rumo ao nada, passados pesquisados, artes literárisas, cinemas transcendentais.

Colônias libertadas, povos escravizados, reis cagando, pobres se lambusando, seres fenomenológicos, músicas sacras. Origens desconhecidas, presentes contraditórios.

sábado, 26 de setembro de 2009

zoológico humano







Ele sempre se perguntava por que os heróis não choravam, ele tinha seu coração aflito, uma pergunta presa na garganta, uma indagação que levava sua alma a arder nos infernos das dúvidas: Por que sofremos? A dúvida sobre nossa existência era marca registrada de seus pensamentos sádicos, de suas reflexõs profundas e pornográficas. Para João só poderia haver uma razão para a vida e essa razão era Deus, o arquiteto do cósmo, o criador do bem, a luz que ilumina nossas vistas pecadoras.



Caminhando lentamente sobre a grama, com pisadas meigas e suaves ela desfilava seu corpo magro, sua face angelical refletia a luz do sol, brilhava mais que vaga-lume ou olho de gato, sua saia chegava até os joelhos, mas isso não impediu que os olhares fuzilantes de João a despice com a mente e visse sua carne infernal a tentá-lo, a levá-lo ao mundo da luxúria. Com um ato rápido e inesperado João agarrou a moça desconhecida e bonita e a levou para dentro do bosque, seus gritos desesperados foram abafados pelas mãos calejadas do pedreiro temente a Deus e angustiado por dúvidas infernais.



Olho nos olhos desse humilde e pacato homem, pergunto-lhe qual a motivação de um crime tão bárbaro e ele chora como uma criança, vejo a ternura em pessoa bem em frente a me fitar com vergonha e humilhação. Como um ser tão bom, religioso e trabalhador pode fazer tamanha crueldade, realmente o bem e o mal não estão separados, mesmo dentro dos mais bondosos seres humanos há um animal sanguinário e feroz adormecido.



A roupa da moça desconhecida foi arrancada com uma força bruta fenomenal, seu corpo agredido com dentadas e murros, uma boca sedenta por carne conseguiu desfigurar aquela beleza jovial, sua vagina foi penetrada com violência e sem clemência, seu ânus e sua boca foram palcos de um show de dor, o prazer mórbido e agressivo de joão o levou ao limite do êxtase, uma verdadeira explosão de orgasmo. A língua que a desconhecida usava para falar três idiomas foi arrancada por um beijo apaixonadamente grotesco, o sangue que jorrava de sua boca se misturou com o dos outros orifícios.



Aquele jovem tímido de pucas palavras e muita força trabalhou duro para sustentar seus pais doentes, suas mãos calejadas foram usadas para quebrar o crânio daquela desconhecida, a humanidade bate palmas para a crueldade, sua vergonha o fez suicidar, eu acompanhei de perto aquela criatura doce e lacrimejante que teve a ousadia de ser sádico e homicida.



Abro o jornal, a notícia estampada na capa é de um crime que chocou todo o país, João pedreiro é o protagonista dessa bela reportagem que leio com sofreguidão e curiosidade, tenho uma atração por seres humanos e seus atos mais loucos e improváveis, esse homem é realmente uma beleza rara do zoológico da podridão sapiente. Aquela desconhecida é vítima do acaso, da loucura, do desejo incontrolável do animal que dormia no coração do pedreiro gentil e trabalhador. O sangue escorria pela grama do bosque.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Raul seixas

Leiam um pequeno texto que escrevi para o twitter sobre o Raul Seixas clicando nesse link

sábado, 19 de setembro de 2009

QUADROS IMPROVÁVEIS


o calor estava infernal, o ventilador do meu quarto parecia um dragão cuspindo fogo com seu ar quente, com suas labaredas vermelhas. O suor escorria pela minha pele, salgada como lágrima o líquido percorria meu revestimento biológico desidratando meu corpo, umidecendo minha visão. A chuva veio e com ela a esperança de dias mais frescos, mas o que se sucedeu foram dias mais quentes, a água que descia do buraco negro e sombrio não aquietou minha alma, não trouxe mais alívio para esse ser que caminha pelo mundo em busca de nada.

O azul voltou a encobrir nossas cabeças, moscas, roupas curtas, sorvetes e línguas de fogo continuavam a me lamber. Num cômodo abafado e sem ventilação começo a pensar sobre o que pensar, falta imaginação nessas mentes humanas, falta tesão na vida, falta comida nas mesas de algumas famílias. A morte prematura, a fome, o sofrimento humano de uma forma geral veio até minha imaginação, molhou minhas idéias com cachoeiras de indignação, me lembrei do meu passado socialista.

A falta de sentido na vida não conseguiu aliviar a dor moral que percorria meus nervos, tanta coisa passou pela tela dos meus pensamentos, amores perdidos, leituras distorcidas, brigas infantis, mas era a desgraça, a tragédia da vida que tomava de assalto minhas mais profundas reflexões.

O que fazer para mudar a vida de milhões de pessoas que passam fome, que não tem emprego, que estão a mercê de traficantes, ditadores e governos bêbados? Chorar não adianta, sonhar com utupias e mundos fantasmagóricos tabém não; pedir ajuda a divindades nd além é loucura, acreditar que a população irá acordar do sono alienatório e irá participar anergicamente das tomadas de decisões políticas é um pouco ilusório.

Eu sozinho não irei fazer um novo mundo, não consigo nem mudar minha vida, não consigo colocar nos trilhos o trem que carrega minhas espectativas, como poderei dar um novo sopro de vida nesse moribundo mundo?

A esperança já cansou de esperar, o carro não chegou, a transformação não alcansou os desgraçados, os humilhados, os sem amanhã. Eu continuo acreditando no ser humano e na sua incrível capacidade de destruição, má distribuição e dominação.

Vou ser um pouco egoista e mesquinho enquanto corro atrás de alguns sonhos pessoais, prazeres individuais, beijos molhados, leituras transcendentais, oportunidades materias, mas não abandonarei esses sonhos tão coloridos de uma humanidade mais feliz e saudável, bem alimentada e em paz, mesmo que seja apenas um sonho, não faz mal mentir um pouco para nós mesmos, alimentar espectativas impossíveis, pintar quadros improváveis.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

porta da frente


Ando pela casa solitariamente, vejo livros, computador e um monte de lembranças correndo atrás de mim. Abro gavetas, portas e meu coração, sinto o frio percorrer toda a minha saudade, minha vontade de abraçar o vento e gritar para o mundo o meu sofrimento é tão grande quanto o infinito.

A noite cai e com ela vem a melancolia, mais um dia se foi, faz um dia que você atravessou aquela porta, com malas nas mãos levou minha felicidade, minha vida caiu no caótico poço escuro, meus pensamentos mergulharam nas imagens de corpos em chamas, em prazeres envolventes, nossas fotografias são um partal para a nostalgia, eu sou a própria derrota com pernas olhando para o espelho do desespero e vendo o reflexo de um ser invisível.

O sol já vai nascer, ainda não dormir, ainda não comi, ainda tenho a falta de você. O som que vem do silêncio desses cômodos me apavoram, seu cheiro ainda está me excitando. Não vou acender a luz, quero contemplar a escuridão e esperar que os raios solares me queimem até a morte, vou deixar minha memória me martirizar. O sorriso de criança que estava estampado no seu rosto se confunde em minha mente com sua cara pervertida, com seus gritosa de prazer. Gritos, é o que ouço dentro de minhas entranhas, são os meu sentimentos enjaulados declarando sua ira.

A imagem congelou, você está paralizada na porta da sala segurando sua mala, estou sem palavras, naquele momento não chorei, não briguei e nem te impedi de ir embora, naquele momento apenas olhei e vi minha vida fugir pela porta da frente.

domingo, 13 de setembro de 2009

LADY VINGANÇA





Como uma pessoa pessoa má pode ser tão boa, ou como uma pessoa tão boa poder ser tão má? O bem e o mal caminham lado a lado na alma humana, são duas faces da mesma moeda. Dentro dessa perspectiva podemos compreender melhor o papel da vingança nos seres humanos. Não existe ninguém que nunca quis se vingar de alguém, porém poucos tiveram essa atitude.


No cinema são inumeras as obras que tratam do tema vingança, muitas são apenas passa tempo sem nenhuma qualidade artística, outras são verdadeiras obras primas como é o caso da dança da morte que é o filme ERA UMA VEZ NO OESTE do mestre Sergio leone, mais recentemente temos os filmes do magistral Clint Eastwood- SOBRE MENINOS E LOBOS- e é claro a eclética e violenta aventura da noiva em KIL BIL do Tarantino. O filme Lady Vingança também mostra a questão da vingança, com uma narrativa não linear o diretor Park Chan-Wook leva as telas a história de uma mulher que ficou presa por 13 anos por um crime que não cometeu e que ao sair da prisão procura se vingar do verdadeiro criminoso que raptou e assassinou uma criança. Nessa película é colocada de forma dinâmica e bem roterizada a busca de uma mulher por justiça, mesmo que seja pelas próprias mãos, além disso, vemos também a busca por uma vida perdida, por uma filha perdida no passado, o presente é marcado por rancor, raiva e esperança em se colocar o trem da vida de novo nos trilhos.


Com um plano em mente e com a ajuda de colegas que conheceu na prisão Geum-ja procura dar uma razão para sua caminhada na terra, o mal e o bem são diluídos dentro de seu caráter, o que vemos é apenas um ser humano capaz de cometer atrocidades em busca de paz para seus anseios e para sua dor. Destaque para a bela fotografia e pelas cenas de violência bem feitas e representativas, pois não são apenas cenas gratuitas, mas são o êxtase no qual culmina a procura por vingança da protagonista. Mais um bom filme coreano, mais uma obra que reflete de forma bonita e profunda o ser humano.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

SIDERAL


O estrondo é fenomenal, o barulho acelera meu coração, olho para baixo e vejo uma língua de fogo lamber o ar esquentando minha imaginção e aquecendo minha ansiedade. A parede azul é aberta pela estrutura de aço, estou mergulhando na escuridão do espaço, estou indo para a imensidão do universo.

Já faz um ano que estou aqui, não tenho com quem conversar, brincar, sorrir, aqui não existem pessoas chatas, só existem meus pensamentos e o infinito negro a minha frente.

Vejo de longe uma pequena esfera azul, lá dentro há correria, comércio, exploração, amor, tesão, cobiça e árvores, dentro da pequena bola mora um ser com sonhos mesquinhos, com alma alegre e muita fome. Pessoas, pessoas, pessoas, seres que povoam materialmente a Terra e gritam na minha cabeça, enchem meus sonhos de esperança e horror.

Caminhando sozinho pelos corredores da nave sinto a presença de Deus, o paraíso deve ser aqui perto, do outro lado da galáxia. É para lá que vou quando morrer. Que engraçado, já estou no ceú, não preciso mais morrer, só me falta então encontar Deus.

A solidão é empolgante, o nada me acompanha rumo ao infinito, tenho o brilho das estrelas como guia, o sol esquenta minha alegria, o negro e frio espaço me engole com sua verocidade eterna.

Como é romântico flutuar sozinho, como é triste não ver um rosto humano, sinto que vou mergulhar na calmaria, mas sozinho.

O caos e o absurdo estão em toda parte, mesmo nesse gélido e solitário caminho, nem Deus se arrisca a vagar por aqui. Acho que estou indo para o início de tudo, vejo um feixe de luz a encobrir minha conciência. Continuo sem respostas para a vida, ela é mesma uma incógnita, não há sentido nela, apenas uma infinidade caótica, um existir sem motivo.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

7 DE SETEMBRO REALISTA


Sete de setembro, independência do Brasil, data que leva alguns a nostalgia, ufanismo e amor a pátria, outros vêem essa data como uma grande mentira e colocam os problemas políticos e econômicos atuais como um simples desdobramento desse processo de independência frajuto. Extremismos a parte o certo é que a data tem uma importância histórica e política importante, é o primeiro passo para a construção do Estado Nacional brasileiro, ele é feito sem grandes mudanças socio-econômicas, além de termos como líder o herdeiro do trono português, mas não podemos esquecer que foi fundamental para a nossa formação política e de identidade.

Aqueles que criticam o sete de setembro tem razão no que se refere ao aspecto não revolucionário do processo, mas se enganam ao colocar a culpa dos problemas hodiernos apenas na independência, pois a situação política, econômica e social tem outros fatores relacionados a sua dinâmica e conservadorismo. Críticas de uma parte, romantismo de outra, temos que ter uma visão realista, o Brasil não se tornou uma pátria democrática e igualitária com a idependência, mas deu um passo importante para esse rumo com a separação de Portugal. Apesar do pieguismo não devemos jogar na lata do lixo nossa memória, ela faz parte de nosso cimento identitário e um povo sem história, memória e identidade é um povo sem orientação temporal e social e sem perspectiva política, é um corpo desgovernado sem chance de ir para frente rumo a uma melhor organização política, social e econômica. Se queremos ter uma democracia mais ampla e cidadão, uma economia mais igualitária e uma sociedade mais coesa e harmônica temos que ter uma ação política e uma mudança cultural, de mentalidade. Não podemos ficar apenas idolatrando o passado, ou jogando ele na caixa do esquecimento, devemos usá-lo como arma de transformação política e como parte de nossa tradição e cultura nacional.

UP- ALTAS AVENTURAS








Quando criança adorava assistir desenhos animados na televisão, sou da geração que vibrava em frente a tela mágica com as aventuras do he-man, dos Thundercats e do clássico caverna do dragão, se tratando de longa metragem só me lembro de assistir o meigo e emocionante DUMBO. Da adolescencia para a minha vida adulta abandonei o hábito de assistir a essas fantasiosas e maravilhosas viagens coloridas- abro uma pequena exceção para os SIMPSONS- que tanto me agradavam, cheguei até a nutrir um certo pré-conceito em relação as animações, isso mudou com o meu primeiro contato com a animação Sherek, desenho divertido, irônico e bem feito, que agradou ciranças, jovens e adultos-inclusive a mim.



Recentemente fui ao cinema me deliciar com uma animação e tive uma surpresa, estava diante dos meus olhos não um simples e divertido desenho, mas uma obra prima do cinema, estou falando de UP-ALTAS AVENTURAS, animação feita em 3D e que conta a história de Carl Fredricksen, um velho de quase 80 anos que sempre teve vontade de sair em viagem rumo a América do Sul, esse sonho era compartilhado por sua falecida esposa, mas por motivos financeiros eles nunca puderam realizar, com a morte dela e com sua vida prestes a ser enjaulada em um asilo o bom velhinho resolve encher sua casa com balões e sair flutuando pelo ar até a maravilhosa terra das cachoeiras na América do Sul, acidentalmente ele acaba levando também um garotinho gordinho e falante que atende pelo nome de Russel. Nessa fantástica aventura tem cachorros falantes, aves axódicas e um vilão idoso, além de muita comédia e uma boa e refinada dosagem de drama.



UP conseguiu com apenas 5 minutos de projeção arrancar lágrimas desse coração de pedra que aqui escreve e, com 10 minutos de filme estava com a boca doendo de tanto rir, parece contraditória, mas é assim que funciona essa animação, ela nos leva pelos túneis mais profundos do coração humano, pelos sonhos de criança, nos faz rir com situações estravagantes, nos emociona com a solidão da velhice, o abandono e da falta de um grande amor. A amizade entre um idoso e uma criança é o ponto alto dessa aventura cheia de magia e encanto. Up é um desenho com alma infantil, mas que trata de temas bem adultos e que cativa com personagens abandonados e entregues a tristeza, mas que juntos vão mergulhar num mundo de aventuras e descobertas, Obra prima que consegue arrancar emoção, lágrima e gargalhadas, contraditoria como a vida, épica como os sonhos, colorido que nos faz pensar que a vida vale a pena, mesmo que seja no final.