sexta-feira, 7 de junho de 2013

NOTÍCIAS DE JORNAIS SÃO BELAS E A SEDE SE MATA COM SANGUE.



A boca seca, a sede percorre minhas entranhas, leio algo estranho, assassinato em massa de cachorros em algum lugar do Brasil, não levanto para beber água, não levanto para gritar contra o sangue derramado. Semana passada li sobre jovens mortos em chacinas, pessoas mortas em guerras, mulheres estupradas sangrando por dentro, violentadas por fora, dilaceradas em algum lugar da alma, não levantei para beber água, a sede percorria todos meus órgãos, podia sentir a falta de água em minha consciência, o nada dadificava a seco o mundo dentro de mim, a água não molhava minha boca, os cachorros mortos boiavam em minha imaginação junto de soldados fuzilados em alguma guerra longínqua, perdida no tempo, não levantei.
O barulho no portão, cachorros latindo na rua, o som do violão ensurdecia a noite, batia no silêncio de minha solidão, eu com sede passava os olhos nas notícias, em vídeos eróticos, em fotos coloridas, o som do coração batendo não era ouvido por mim, eu me lembrava de algum beijo adolescente atrás de uma árvore, pessoas penduradas em árvores com cordas no pescoço são assustadoras, assim como é assustador se enforcar na corda da liberdade e se angustiar com decisões tomadas, a angustia dilacera o pensamento de qualquer vivente, eu espirro, a poeira em meu quarto suspende e enche meus olhos de sonhos com desertos, não levanto para beber água, me excito com fotos de mulheres nuas.
Uma música psicodélica, mais notícias, corrupção, saudosismo, gol, pessoas passando fome, governos ditatoriais, se o voto não fosse obrigatório essa massa estúpida e acéfala não votaria nessa massa verborrágica de vermes engravatados, se o mundo não girasse não seria engraçado, desgraça é uma palavra poética que combina com respirar, arames farpados, campos de concentração, pessoa esticando os braços, os cachorros mortos na notícia ainda estão lá, apodrecendo junto de comunistas e seus muros derrubados.
Pessoas ouvindo músicas sertanejas e bebendo, jogos de futebol gargalhadas, nada de discussões sobre melhorias salariais, sobre a arte após segunda guerra, nada de olhar para as nuvens e tirar frases estéticas sobre o branco mergulhado no azul, sobre o sangue e o pus saindo de pessoas ainda em vida, mas mortas para o sistema, nada de indignação com o caos da saúde, beijo a mulher em pensamentos, coloco meu pênis em sua boca, ele mergulha em sua molhada cavidade bocal, depois puxo seus cabelos, bato em suas nádegas e gozo dentro de sua vagina, acordo, lavo o rosto, não levantei para beber água enquanto lia essa história e notícias sanguinolentas, os cachorros estão lá.
O desencantamento do mundo, a morte de deus, os tomates verdes e fritos, o vento que levou todos os sonhos utópicos, as vaias aos militares, as ditaduras eventuais, as pessoas merecem suas derrotas, merecem seus governos, são imperdoáveis, os cachorros ainda gritam na escuridão, a notícia ainda vibra nos olhos, corpos e mais corpos, levanto, bebo água, como uma maçã e me lembro da música do Raul, mas os cachorros não vivem mais, mais nada há de sensato no mundo, no mundo nada mais será depois de nadificado pela consciência, guitarras, solidão em meu quarto, desligo a lâmpada, o sangue espirra em mim, acordo, lavo o rosto, enquanto leio essa história o mundo gira lá fora e aqui dentro matam cachorros por 5 reais.



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