sábado, 1 de maio de 2021
quarta-feira, 20 de janeiro de 2021
Sexismo e Violência
A
violência contra a mulher é uma constante em nossa sociedade, e ela não é
a-histórica. Antes da propriedade privada e do surgimento das classes sociais
não podemos falar de uma violência, de uma relação social violenta contra a
mulher. Após o surgimento da desigualdade social, temos também a desigualdade
entre os sexos, com a opressão da mulher- sendo ela reprimida na vida pública e
coagida na vida privada.
Na
sociedade classista capitalista a realidade supracitada continua, e se
intensifica com a mercantilização da vida, dos corpos; com a erotização e
desclassificação da mulher como objeto, mercadoria. Nesse diapasão temos a
violação dos corpos femininos que são vistos como propriedades por pais,
maridos; como objetos por homens de forma geral.
Na
luta feminina contra essa violência tivemos avanços, como criação de delegacias
especializadas- DEAM’s a partir de 1985, legislações com a Lei Maria da Penha
em 2006 e de Feminicídio em 2015. Entretanto sabemos que somente isso não
resolve o problema.
A
prisão não consegue diminuir o número de crimes de forma geral, e muito menos
de violência contra a mulher.
A
luta contra a violência doméstica passa por mudanças na ideologia sexista,
através de uma luta cultural e da educação; de mudanças nas relações sociais de
trabalho que desqualifica e exclui a mulher.
Não
lograremos êxito com prisões se não tivermos acompanhamento dos homens
agressores com psicólogos, monitoramento e trabalho educativo após a saída da
prisão. Não temos uma ressocialização adequada com palestras, cursos e
atividades desses homens envolvendo a questão feminina.
Apenas
encarcerar e soltar pessoas estigmatizadas, e sem mudanças na totalidade social,
será como assoprar para apagar fogo de um fósforo dentro de um prédio em
chamas.
A
chamada teoria de gênero tem suas limitações, pois coloca a situação apenas no
plano “cultural”, nos papéis sociais dentro e uma cultura dita “machista”; mas
acaba sendo mais uma ideologia que obnubila as relações de classe, a opressão
da mulher e seu caráter histórico.
Enquanto
nos limitarmos a encarcerar e tentar mudar mentalidades a nível “cultural”, sem
trabalharmos a totalidade social; e sem repensarmos a acompanhamento dos
infratores fora das prisões, estaremos dando continuidade ao aumento da
violência sexista contra a mulher.
[Publicado originalmente no jornal Diário da Manhã no dia 08 de janeiro de 2021.]
terça-feira, 29 de setembro de 2020
A cor negra dos homicídios no novo Atlas da Violência 2020
Dia 27 de agosto de 2020 foi publicado o novo Atlas da Violência, nele encontramos dados sobre homicídios e, pasmem, temos a constatação que houve diminuição no número de homicídios nos anos de 2017 e 2018.
No próprio Atlas há hipóteses para essa diminuição, como trégua na guerra entre facções criminosas, principalmente PCC e Comando Vermelho; envelhecimento da sociedade, com óbvia diminuição do número de jovens, correlação com estatuto do desarmamento etc.
Mesmo tendo diminuído há estados onde a diminuição não foi tão intensa, e há tipos de homicídios que cresceram; esse é o caso do homicídio de pessoas negras. No Brasil os negros representam 75,7% dos homicídios, sendo 3,7 para cada 100 mil habitantes. Além disso temos uma diferença na diminuição de homicídios entre não negros e negros como atesta o próprio Atlas:
Ao analisarmos os dados da última década, vemos que as desigualdades raciais se aprofundaram ainda mais, com uma grande disparidade de violência experimentada por negros e não negros. Entre 2008 e 2018, as taxas de homicídio apresentaram um aumento de 11,5% para os negros, enquanto para os não negros houve uma diminuição de 12,9%, conforme ilustrado pelo gráfico 18.
A questão do negro passa pelo racismo, logo por uma realidade concreta racista e não apenas por uma ideologia racista. O racismo surge com a expansão marítima e comercial europeia, com a “necessidade” de mais mão-de-obra para as colônias, do contato crescente entre as raças; e da opressão e mercantilização de uma raça sobre a outra.
Com a abolição da escravidão no século 19 no Brasil não tivemos a abolição das relações excludentes dos negros, e nem da ideologia racista, que é alicerçada nas relações racistas e cria a ideia, a inversão da realidade, que coloca o negro como inferior, marginal, preguiçoso, criminoso etc. Logo, os negros foram socialmente jogados na sarjeta, não foram incluídos no mercado de trabalho, na meritocracia, no serviço público; não tiveram o mesmo acesso ao ensino de qualidade.
Claro que hoje há negros em todas as classes sociais, mas são predominantes nas mais baixas: na proletária, no lupemproletariado e no desemprego desclassificado.
Também foram varridos pela vassoura higienizadora da urbanização para as periferias das cidades, como na destruição dos cortiços no Rio de Janeiro para construções de viadutos, bulevares e espaços para o comercio.
Nesse diapasão os negros formam grande parte da população atual com baixa escolaridade, morando nas periferias com paupérrimos salários, transporte e saúde pública precária; são pessoas que engrossam as fileiras do subemprego, do desemprego e do mundo criminal mais perseguido jurídico, político e policialmente: roubo, furto, trafico de drogas; diferentemente dos crimes mais usuais de brancos ricos: estelionato, crimes de “colarinho branco”, como a corrupção, por exemplo.
Com as más condições educacionais, urbanas, de empregos temos a soma da ideologia racista que coloca a cor da epiderme relacionada a preguiça, mau caráter, tendências criminosas etc. Nesse caldeirão são fervidas na mesma água negros, periféricos, jovens e com baixa escolaridade autores e vítimas de homicídios, já que o perfil é o mesmo.
Enquanto os negros formam a maioria dos enlatados no sistema carcerário, que por si só não resolve o problema da criminalidade e violência, são também a maioria das vítimas de homicídios por uma máquina adaptada para moer carne preta. São esses negros, pretos e pardos conforme o Atlas e o IBGE, que são cooptados pelo tráfico nas bocas de fumo, que evadem das escolas, que tem dificuldade no acesso a empregos dignos e acabam no subemprego, caindo nos braços de fações criminosas e são os principais alvos da violência estatal policial.
Deixo aqui um parêntese, há mortes de jovens negros por policiais que são justificáveis, mas isso não justifica a ‘necropolítica” do Estado, que fecha os olhos para os jovens negros sem perspectivas, sem empregos, marginais que engrossam as estatísticas mortíferas.
Se não houver políticas públicas que visem a educação, melhorias urbanas, criação de oportunidades de emprego, reestruturação do sistema penitenciário com uma abordagem após saída do detento; e claro mudanças na sociedade que engendra a violência contra todos, mas principalmente contra o negro, teremos sempre essas melancólicas notícias e esses frios dados sobre a frieza da indiferença racial.
Não bastam mudanças “culturais”, se não tivermos mudanças nas relações concretas que possam abolir o racismo, que a longo prazo só terá êxito com a extinção da sociedade classista racista.
....................
Texto publicado originalmente no jornal Diário da Manhã em 26 de setembro de 2020.
sexta-feira, 21 de agosto de 2020
Civilização e Barbárie Virtual
O
progresso tecnológico não foi acompanhando de uma progressiva e dinâmica
melhora ética; não estamos caminhando de uma barbárie para uma civilização.
Pelo menos não dentro de um diapasão evolucionista.
A
técnica fria e calculista possibilitou aviões, exames e medicamentos médicos,
viagens espaciais, curas de doenças; a tecnologia foi responsável pelo
aperfeiçoamento industrial, transporte e comunicações. A mesma esteira que
trouxe o primor técnico, trouxe também guerras com mortes em massa,
equipamentos bélicos mais mortíferos.
Olhando
pelo caleidoscópio do social percebemos que as relações humanas não foram
beneficiadas na mesma intensidade; a sociedade do capital gera cada vez
mais miséria, populações morrem em maior número devido a violência criminal, estatal,
guerras, fomes etc. Logo, a civilização que trouxe trens de auto velocidade,
vacinas, cinema; trouxe também tanques de guerra, fome, alienação e
coisificação do ser humano.
O
ser coisificado se torna um objeto, deixa de ter dignidade, como diria Kant, e
passa a ter preço, onde qualquer outra coisa pode ser colocada em seu lugar. A
sociedade tecnocrata, capitalista se tornou um criadouro de coisas, humanos
mecanizados e bestializados.
A
internet, essa terra virtual que possibilitou transações bancárias rápidas,
comunicações em tempo real, acesso a textos, músicas, conhecimentos; que quebrou
a barreira da distância, do som e da sapiência; ela carregou em seu ventre a
falta de diálogo, ataques, fake news e monstruosidades.
A
internet se torou o palco de um espetáculo real e alicerçado nas mudanças dos
últimos anos; mudanças essas relacionadas a crises econômicas com desemprego,
recessão, crises políticas e recrudescimento de extremismos como: xenofobia,
racismo, ultranacionalismo, flerte com a ideologia fascista e outras mazelas.
Nas
redes sociais vemos o desdobrar do rancor, da falta de perspectiva de pessoas
que temem o outro, o diferente, o estrangeiro, coloração partidária e/ou
ideológica contrárias as suas. Nas redes temos o ataque ao outro, que de
interlocutor passou a ser o inimigo, o mal, o mensageiro do apocalipse.
No
lugar do diálogo, da ação, da compreensão temos a negação, o silenciar e o
apagar da outra voz.
Há
muito de ressentimento, de remoer sentimentos mesquinhos de inveja, de contrariedade;
se envenena ao não conseguir digerir o que incomoda; fracos, como diria
Nietzsche. Querem castigar o diferente, o nobre, o altivo; ou mesmo, o que
incomoda e contraria as massas, o rebanho sem voz própria que segue pastores
espirituais, líderes políticos carismáticos, ou as falsas notícias das redes
sociais.
A
civilização que tem a ideia de polidez, bons modos, ciência, “iluminismo”
racionalista; é também desumanizador, genocida, racista e mecanicista.
No
âmago da matrix prolifera notícias falsas, ataques a pessoas com
calúnias, injúrias, como as raciais. Desejos subterrâneos e sub-reptícios são
aflorados, ânsia em eliminar quem pensa diferente, quem tem outra fé, raça,
sexualidade, ideologia; quem nega a verdade única de quem se limita a uma
verdade cartesiana, fechada e excludente.
O
capitalismo passa por uma fase “toyotista” de acumulação integral com um estado
neoliberal, com neoimperialismo- globalização, e crises de acumulação de
capital cada vez mais frequentes.
Esse
regime do modo de produção tem como característica aumento das desigualdades
sociais, desemprego, estado mínimo para o social e máximo para a economia e
repressão dos excluídos. Nos últimos anos percebemos que ele foi criticado, e
em seu lugar tentam colocar um estado neoliberal na economia, e mais
autoritário e facínora ainda na política; uma mistura de fascismo com
liberalismo.
Desde
2008 sofremos a ressaca de uma crise, e, antes mesmo dela, já víamos a sombra
do monstro crescer sob as ruínas de outras crises. Nesse caldeirão borbulhante os
ressentimentos, os nacionalismos e autoritarismo crescem e explodem em ataques
virtuais que tomam corpo fora das redes sociais também.
A violência toma uma nova roupagem quando não somente fere, maltrata, machuca e mata; mas desumaniza e torna o outro apenas um animal para ser sacrificado ou coisa para ser trocada, destruída ou sucateada, e esquecida. Essa nova roupagem podemos chamar de barbárie, ela nasce dentro do intestino civilizacional, obscuridade cuspida pelo iluminismo, popularizada e disseminada na internet; nesse deserto surreal, tão absurdo quanto a vida fora da rede social ou a literatura kafkiana.
..........................................................................................................................................................
Publicado originalmente no jornal Diário da Manhã em 20 de Agosto de 2020.
Link do jornal:
quinta-feira, 6 de agosto de 2020
Capitalismo e Melancolia no Filme Blade Runner
domingo, 2 de agosto de 2020
Movimento feminino ou feminista? Teoria sobre movimento social feminino
Link do artigo: https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/106/o/Clodoaldo_completo.pdf
terça-feira, 21 de julho de 2020
E o Amanhã Pós-pandemia

O que esperar do amanhecer próximo além de possibilidades? Vida, com toda a sua lisonja, barbárie, libido, angustia, crueldade e falta de sentido. O conservadorismo reina, mas a revolução teima em marchar no subterrâneo, mesmo sob a chuva virulenta que sai das gotículas contaminadas e mundializadas.
E depois da vida, o que resta? O nada, a falta do brilho, da dúvida, do amor, do incomensurável e estupefato olhar do ocaso que não é por acaso, mas nos beija com seus raios laranjados. Não há poesia na melancolia? Mesmo sorumbático há beleza no mundo; mesmo pandêmico temos prazer e potência. E o amanhã será um eterno retorno do mesmo, mas com possibilidade de algo novo girando nessa eterna roda que existirá enquanto dura, pois o eterno findará com a esperança e renascerá com novas crianças.
E depois da vida, o que resta? O nada, a falta do brilho, da dúvida, do amor, do incomensurável e estupefato olhar do ocaso que não é por acaso, mas nos beija com seus raios laranjados. Não há poesia na melancolia? Mesmo sorumbático há beleza no mundo; mesmo pandêmico temos prazer e potência. E o amanhã será um eterno retorno do mesmo, mas com possibilidade de algo novo girando nessa eterna roda que existirá enquanto dura, pois o eterno findará com a esperança e renascerá com novas crianças.