quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O Estado de Temer e velhice temerária



Toques suaves de guitarra, vibrações no ar, enquanto a música progressiva me lembra filmes de ficção-científica, vejo futuros distópicos como os dos livros, filmes e demais artes de imaginação científica. Arranha céus, chuvas ácidas, máquinas dominando, seres orgânicos dominados, noites românticas, noir, mistérios no ar armazenando sonhos desfeitos, predestinações não satisfeitas, desertos nas mentes onde a água transbordou para as bordas do abismo sem telos, sem nexo, sem odor, amor ou gozo.
A música silenciou, o constrangimento chegou, juntamente uma massa seca e amorfa dominou todo o continente, são os ares que saem das narinas do dragão, desse monstro caquético, jurássico e quase imortal; Estado, eis o nome do deus que não se pronuncia sem temer suas garras, o fogo de suas entranhas. Estamos todos em suas garras, as unhas já penetram na carne, o fogo já derrete tudo que não é útil a manutenção da máquina, as PEC’s, as reformas, todas as artimanhas desse tinhoso demônio nos levam para o inferno terreno.
Saímos da crise institucional do governo petista, crise política, econômica e “moral”, no lugar veio a crise política, institucional e econômica do governo PMDB que se aliou aos liberais democratas, ruralistas e alguns fascistas, para manter o controle do capital, dos grandes proprietários de terras, especuladores, instruais, banqueiros, políticos e todos aqueles que se beneficiam do sistema excludente, da sociedade de mercado e do liberalismo que libera o lucro, mas censura a distribuição de renda. Esse governo é herdeiro de desmando de todos os governos republicanos; dívidas, desmandos, ingerências, corrupção, autoritarismo, e tudo isso foi feito, pelo menos na nova república pós ditadura, com participação do PMDB.
A conta de tudo isso descrito acima é cara, mas quem paga? Paga quem é mais fraco, quem é pobre e depende do SUS, quem é miserável e depende da escola pública, saúde e escola essas que serão prejudicadas com cortes, assim como salários de funcionários públicos. Mas isso ainda é pouco, temos agora a bola da vez, a reforma previdenciária, previdente que tira o sono da gente e arranca os dentes de quem já era banguela. A reforma que na verdade é um estupro institucional patrocinado pela direita que quer fazer com que trabalhadores trabalham mais e ganhem menos, se aposentem mais tarde e com um rendimento menor. Assim como os remadores da Odisseia Homérica estamos com ouvidos tapados com ceras, apenas remamos, trabalhamos, mas em o prazer e sem sentido, apenas Odisseus está seguro amarrado com as cordas do poder e com os ouvidos livres pode gozar ao som afrodisíaco das sereias. Remamos para a morte, uma velhice sem direitos, enquanto o estado se safa, tampa os buracos feitos pelos ratos que dilapidaram nossas finanças, previdência e paciência.
O que é mais importante salvar o Estado ou a dignidade de velhos trabalhadores carcomidos pelos anos, pela labuta e com sangue jorrando pelos cofres de grandes empresas, bancos e fazendas?
Se o estado está “quebrado” não somos nós que iremos remenda-lo sangrando a classe mais desfavorecida; se a previdência tem um rombo não iremos tampá-lo arrombando as portas da esperança e dilacerando a aposentadoria de pessoas já todas esfaceladas.
O ser humano não pode ser um valor monetário para ser desvalorizado pelo Estado, não pode ser uma ferramenta para ser usada ao bel prazer de quem tem o comando financeiro e político, o ser humano deve ser um fim em si mesmo e não um fim para desejos escusos de político e empresários.
“No reino dos fins tudo tem um preço ou uma dignidade. Quando uma coisa tem um preço, pode-se pôr em vez dela qualquer outra como equivalente; mas quando uma coisa está acima de todo preço, e, portanto, não permite equivalente, então tem ela dignidade”. (KANT)

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

MANIFESTAR SIM, MAS PARA MUDAR E NÃO PARA A MANUTENÇÃO DO MUNDO COMO ELE É.



Paralelepípedos ideológicos na estrada incerta rumo ao abismo sem fim da indignação, passando pela trepidação das pedras com pneus cheios de esperança vemos sacolejar dentro do monstro mecânico os sonhos orgânicos de pessoas que não ousam mais sonhar, apenas falam, falam e cospem palavras ácidas, efervescentes e cheias de saudade nas redes sociais. Palavras de ordem, palavras contra a balburdia institucional, palavras nacionalistas; porém, palavras sem a base popular, sem apego a mudança mais radical; são palavras de pessoas que são contra a corrupção, contra os abusos do atual, e antigo governo, mas que são conservadoras, que querem manter o mundo como ele.
As pessoas reclamam dos partidos, reclamam dos políticos, saem às ruas vestidas de verde e amarelo; cobram justiça, ética, honestidade. A indignação dessas pessoas é compreensiva, e justificada; como não se indignar com a corrupção, autoritarismo, com reformas que retiram investimentos básicos em educação, saúde e previdência? Entretanto, manifestar contra partidos e políticos mantendo as regras do jogo, mantendo a alienação e dispersão dos cidadãos em relação às decisões políticos pode mudar alguma coisa?
A carcomida e geriátrica democracia burguesa representativa não representa os interesses da maioria, como ela diz representar; ela, na verdade, é apenas uma máscara que encobre os reais interesses por trás de sua manutenção, por trás das rédeas dessa carroça burocrática chamada Estado. Nunca foi interesse de comerciantes, industriais, intelectuais orgânicos, banqueiros e/ou outros membros das classes dominantes que pessoas despossuídas de capital, propriedade e status assumissem a responsabilidade de suas vidas e pudessem participar “democraticamente” das decisões políticas; com isso criam essa ficção medonha de representação, onde você dá uma procuração a uma pessoa poder participar das decisões legislativas e do comando administrativo da vida das pessoas.
Apenas manifestar contra partidos e políticos não mudará a nossa situação, enquanto não formos participativos, enquanto não houver uma democracia direta seremos sempre o que chamam vulgarmente de “massa de manobra”, quando querem que se manifeste contra X nos chama, contra Y, nos chamam, quando tudo está bem , a economia desliza sem muitos solavanco, ficam calados, e como todos estão felizes, consumindo e vivendo bestializados pelas luzes das mídias, ficamos todos em silêncio constrangedor, a dominação e exploração não são sentidas.
Ou se muda os quadros, e a mecânica, de funcionamento político ou seremos sempre joguete nas mãos de quem dirige a economia, o Estado e as manifestações. Temos que ser contra a corrupção, contra os desmandos, porém, temos que lutar para destituir quem controla isso e passarmos sermos os donos de nosso destino. Uma democracia onde o povo não decide, não administra e não opina não é uma “democracia”, é uma ficção, uma ilusão que se dá em meio ao deserto político, nas areias escaldantes da ingenuidade que é a base da dominação e abre as portas para a exploração.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Noite, Chico Buarque, direitos humanos: a teleologia da desgraçada falta de dignidade humana.



Final de tarde, a noite já beija com sua negritude a atmosfera, o sol já mergulha constrangido no horizonte, a música toca melosa, melancólica, de forma suave toca o triste acorde, a voz do cantor diz coisas profundas sobre a superfície humana. Chico Buarque, o que será que será que dói dentro do peito e que não devia? O que diz o coração que não ouvimos em dias de chuva de pessimismo, em fins de tarde sem perspectiva? A noite já beijou o dia, agora ela goza com sua lua romântica, já posso pensar sobre o dia que se foi, as crônicas dessa odisseia sem Ulisses.
O que será que será que pensamos que é imoral, é legal e sem juízo? Revela a harmonia de um inferno abençoado pelo padre e cuspido, cheio de escarro, por quem não dá moral ao capacho humano que reflete sobre tudo isso. O terror angustiante da espera do susto, da dor, do sangue, ou o horror da imagem repugnante cheia de verme da carne deformada, do sangue escorrendo pelas feridas cheias de pus. O mundo desigual é um terror, a violência que nasce de suas entranhas é um horror, e o amor onde fica?
As reticências do silêncio constrangedor quando perguntamos sobre validade de um mundo que só dá valor ao útil, ao comercial e desvaloriza o que não é pragmático; a vida não tem valor comercial, mas é vendida barata no mercado pelo capitalista, pelo governo que não quer saber do SUS, a vida não é útil quando é velha, quando não produz na indústria, quando ela é somente feliz é desnecessária, o gozo não rende capital e não dá voto. O silêncio reina, assim como o caos na boca da raposa do filme, as reticências caminham ao infinito, mas é finita a vida, o lucro ultrapassa a moral, é legal.
Jean Valjean de Vitor Hugo encontro Etiéne e a família Maheu de Zola, aquele que roubou pão encontra os grevistas famintos, a França do século XIX é dissecada pelos romancistas românticos e naturalistas; o liberal e o socialista nos mostram um mundo onde a vida é jogada na latrina do sistema, pobres, prostitutas, trabalhadores das carvoarias são ignorados. Quem são essas pessoas? São humanas? Se são, elas não têm direitos a ter direito, ou seja, não tem cidadania, logo, também não tem direitos humanos. Mas o que será que será que faz as pessoas pensarem que direitos humanos é para quem não tem a mínima importância social e econômica?
A noite já chegou na sua metade, a vida das pessoas sem dignidade são metades; quem pega ônibus cheio, quem gasta parte do dia na estrada, quem chega em casa após a noite jogar seu manto sobre o sol e só tem tempo de comer, dormir e acordar para dar lucro ao sistema novamente não tem dignidade; essas pessoas tem preço, e é barato, miserável, a vida é uma miséria.
O telejornal notícia mais uma morte violenta, a violência é gerada nesse mundo onde somos violentados com falta do mínimo, pessoas morrem por causa de celulares, bandidos são mortos por serem violentos, policiais morrem, todos morrem um pouco quando se mata as pessoas nas filas dos hospitais, quando não se tem educação para poder cursar uma boa faculdade, ou roupas para poder passear no shopping cheio de burgueses. O sol é eclipsado, a razão deixa de ser um caminho para vencermos a barbárie e se torna uma bárbara e cega instrumentalização da civilização. A violência é fruto dessa razão desarrazoada, dessa ganancia sem perspectiva humana, desses governos que não são populares, mas instrumentos de uma classe pouco interessada em repartir o pão com Jean Valjean ou com os pobres filhos da família Maheu, respectivamente dos romances OS MISERÁVEIS e GERMINAL.
Para finalizar o texto, porém,  sem dar fim a essa reflexão já marcada pela teleologia da desventura, que reina no mundo mercantilizado cito novamente o velho Chico, o Buarque de Holanda e da poesia: 

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair

Deus lhe pague