sexta-feira, 4 de março de 2016

DEPOIMENTO DE LULA, FALTA DE ORGASMO POLÍTICO E A LIBIDO DEMOCRÁTICA. .



Hoje o dia amanheceu com fanfarras, foguetes, algazarra, balburdia midiática, pessoas atônitas, pessoas em êxtase, cheguei a me lembrar de Guilherme Arantes e sua brega canção. Hoje um furacão jornalístico nos varreu com a notícia bombástica da ação coercitiva que levou Lula, nosso ex presidente, a prestar declarações à polícia federal. Mas o que isso nos diz? De um lado ouço o coração quebrado e as vozes chorosas dos partidários do PT, vozes meio rancorosas que colocam a culpa no conservadorismo, na mídia burguesa, no ódio classista. A defesa ao presidente Lula é ferrenha, lágrimas, gritos e muita paixão. De outro lado ouço vozes roucas, gritantes, uma direita conservadora que teme projetos social democratas, que tem pretensões políticas, muitos ligados ao PSDB, muita paixão corre pelas veias desses aguerridos guerreiros da justiça. No meio disso tudo uma meia dúzia de pessoas indignadas com a corrupção, não partidárias, não rancorosas com a direita ou odiosas com esquerda.

Difícil não se indignar com a corrupção, ela sempre existiu em nossa história republicana, não foi inventada pelo PT, mas foi com os governos petista que, axiologicamente, se valorou mais os escândalos de corrupção, isso não diz que a corrupção petista é melhor ou pior do que tucana, ou outro qualquer, apenas que num determinado momento histórico se deu mais ênfase sobre as denúncias de corrupção, e isso tem seu lado positivo, mostra que a democracia vem desempenhando um de seus atributos, mas é somente isso? Sabemos que há um jogo político por traz disso também, há interesses partidários, econômicos e , além disso, uma cultura ante esquerda de alguns grupos reacionários, porém, também contribui com isso as provas e condenações de algumas pessoas ligadas ao partido dos trabalhadores.

Um show pirotécnico, uma lona, picadeiro, luz, câmera, ação, uma explosão de mil megatons, Lula é notícia, odiado, celebrado, xingado, idolatrado, uma contraditória dança macabra em torno dessa entidade, isso me lembra o “Fora Collor”, outro show da democracia, caras pintadas, juventude transviada e politicamente revoltada, uma guerra justa, democrática e cívica contra o dragão da maldade. O que mudou com todo o alvoroço em torno de Collor, e sua consequente cassação? Quase nada, os corruptos continuaram, alguns bodes expiatórios caíram, bois de piranha, Collor voltou à ativa, se aliou a inimigos, mensalões tucanos, pemedebistas, cachoeiras de corrupção em Goiás, merendas sendo fraudadas e furtadas em São Paulo, desvios do governo federal petista. Luz, câmera, show, apenas fogo de palha, depois da fumaça tudo volta ao normal.

Difícil defender o PT depois de tantas provas e condenações, difícil defender partidos que são contra o PT depois de tantas provas de corrupção, difícil cair no apaixonado grito contra a esquerda ou no doloroso choro contra a fascista classe burguesa, porém, temos que mudar, lutar e sair desse lamaçal no qual estamos atolados e conspurcados.

Sem mudanças no jogo eleitoral, na participação popular, democracia direta, sem mudança de mentalidade e luta política, não mudaremos o quadro de corrupção, se apenas atacarmos pessoas e partidos não sairemos do lugar, temos que mudar estruturas, temos que estar na arena das decisões, fiscalizar, opinar e não apenas seguir, como ovelhas, pastores partidários, midiáticos ou rancorosos que querem jogar pedra na esquerda, direita ou outra denominação que assuma o governo. Não podemos transformar nossa indignação com a atual conjuntura em palanque político ou ofensas gratuitas, brigas sem sentido, temos que transformar isso em combustível de lutas mais holísticas, em emancipações do controle classista, político partidário e da indústria cultural, ou mudamos isso ou ficaremos presos nessa luta de galos sanguinolenta que só dá lucro para os parasitas que sugam nosso labor, esperança e amor.

É broxante ver tanta potência de existir desperdiçada em ataques caninos, intolerantes e sem reflexão, seria muito mais excitante nos unirmos contra a corrupção de todos os partidos, contra toda manipulação midiática, contra todo abuso econômico, mas sem cair na pieguice de defender X ou Y, acusados e comprovados em ações imorais, ilegais e nada democráticas. Por uma política com mais participação popular e menos burocracia partidária, eis o orgasmo democrático fluindo, eis a libido popular tomando os caminhos racionais sem negar seus afetos e sem afetar sua dignidade.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

CARNAVAL, FOLIA COMERCIAL E INSEGURANÇA SOCIAL.



O carnaval chegou, a folia é quebrada pela chuva fria, pelo tom cinza do feriado que cai liquefeito sobre nossas almas, corpos suados, ou olhos cheios de luz, cores e pensamentos libidinosos sobre o presente. Os sons da bateria das escolas de samba não me atraem, nada contra, apenas não faço parte dos admiradores da folia. Minha preguiça, meu gosto estético, todo meu ser me leva para outra forma de arte e diversão, menos enérgica, mais contemplativa. Linhas soltas, palavras impregnando o escopo do olhar, textos literários, políticos, o que vem à mente em imagens em movimento toma protagonismo, o cinema.

Filmes irônicos, secos, românticos, deslumbrantemente quietos, barulhentamente melancólicos, a maioria dos que foram deleitados por esses olhos tinham um ar incomodo, uma seriedade contemplativa, mas um ganha destaque pela poesia violenta enredado em filosofia, nas falas, e em imagens quase congeladas da câmera, é o filme NORTE, O FIM DA HISTÓRIA.

A ideia de fim, de morte, de não andar pela seca, quente e devastada terra incomoda, tira o sono da dormente carne humana, o medo do inevitável se instala, o medo da morte, é de morte que se nutriu o carnaval sem samba desse que aqui escreve como quem vê “o moinho da vida triturar os sonhos tão mesquinhos” do sambista Cartola. Duas mortes foram sentidas e foram simbólicas nesse feriado que é um intervalo entre o nada e coisa alguma.

A primeira morte é literalmente física, nesse final de semana morreu mais um colega da polícia civil, o agente Oscar Shariff, vítima de bandidos que assaltavam um pit dog no setor Oeste, na cidade de Goiânia. A crítica poderia vir contundente: é mais um, tantos morrem e ninguém fala nada, só por que é policial se faz tanto barulho, e por ai vai, mas, vou apenas colocar que, primeiro, por questão pessoal pesa sobre mim a responsabilidade de falar dessa morte em específico, em segundo, há um caráter simbólico por trás disso, pois, é um membro da segurança pública que tem sua vida ceifada, isso mostra como a violência toma conta da sociedade de forma alarmante e inexorável.

É público, notório e ululante a banalização da violência em nosso país, governantes não investem em educação, em saúde, em transporte de qualidade, em meios de distribuição de renda, sem contar a falta gritante de investimento direto em segurança pública, polícias sem estrutura, sem efetivo, presídios sem qualidade, sem condições humanas e sem vagas! Tudo isso contribui para o aumento de assaltos, furtos, tráfico de drogas e latrocínios como esse que retirou a vida de Oscar. Por coincidência o aumento da violência se deu com os mandados eternos do grupo político de Marconi Perillo no poder em Goiás.

A outra morte foi a de uma instituição, de uma locadora de filmes. Perdemos a Cara Filmes, perdemos a melhor, mais robusta, cult e diversificada locadora de vídeos de Goiânia, a morte dessa locadora se deve não a violência marginal, mas sim pela violência da TV a cabo, internet, downloads, serviços de Streaming como a Netflix. A concorrência desleal desses serviços ligado a crise econômica levaram muitas locadoras a fecharem as portas, porém, com o fechamento da Cara Filmes fechamos também um espaço cultural diferenciado em Goiânia, assim como aconteceu com o fechamento recente da 2001 em São Paulo.

Qual outro lugar, além da Cara Filmes, podemos encontrar acervo tão rico de filmes noir, Neo Realismo italiano, Nouvelle Vague francesa, cinema iraniano, obras primas do cinema mudo, Cinema Novo, diretores como Arnaldo Jabor, Glauber Rocha, Kurosawa, Godard e etc.?

Quem quer viver para sempre? A eternidade é tediosa, os vampiros são melancólicos por que são eternos, o “para sempre” é um endeusamento e um inferno, mas isso não quer dizer que as coisas devem morrer de forma estúpida, violenta e sem ternura. A morte de Oscar Shariff mostra a estupidez de uma sociedade sem educação, sem o mínimo de dignidade humana, o animalesco toma conta dessa selvageria que se tornou o mundo. O fechamento da Cara Filmes é apenas mais uma porta que se fecha para a educação cinematográfica, porém entristece também e deixa o carnaval com um samba cinza, um moinho triturou os sonhos tão simples de ver bons filmes, de uma vida seguir em frente, como a do Oscar, esse jovem que teve seus sonhos, potência de agir, amizades interrompidas. Hoje menos arte, menos um ser humano e mais violência reina onde não tem espaço para a humanidade, civilidade, apenas a barbárie e filmes comerciais para alegrarem dias sem entusiasmo, segurança e esperança.  

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Crônica barata sobre o preço caro da passagem de ônibus.



A chuva teimava em continuar, o ar gélido e indecente penetrava pelos vãos das postas e das janelas, a refrigeração era colossal, glacial. A madruga fria, o sono pesado, a barrigada vazia, eis o som estridente do despertador, a dor do despertar, a falta do que sonhar. Acordou. Pedro acordou, mais um ser, mais um número da estatística do mundo administrado com olhos abertos.

Café, metade de um pão já endurecido e muito frio, abre a porte, abre o coração e a mente para a vida lá fora, sai rumo a jornada de trabalho proletária. O escuro, a chuva, o corpo ainda cansado da labuta do dia anterior, Pedro não pode reclamar ou descrever psicanaliticamente sua vida, tem apenas que, mecanicamente, caminhar até o ponto de ônibus, tem que trabalhar, o sistema não pode parar, a roda deve girar, ele tem que girar o mundo ou será engolido por ele. Foi engolido pela serpente metálica cheia de vermes humanos, nas entranhas do animal vai mais um...

A lotação é mais do que máxima, ultrapassa incomensuravelmente o limite tolerado, como sardinha Pedro vai imprensado com outros giradores de rodas dentro da lata alimentícia móvel. Em todas as paradas chegam mais pessoas para apodrecerem dentro do intestino da besta.

Chegando no terminal de ônibus Pedro vai pagar “a passagem’ e passar pela catraca, surpresa, o valor da passagem aumentou, da noite para o dia, uma revolução aconteceu, um golpe que não é de estado, mas está tirando a governabilidade de Pedro. Como um vampiro desalmado o cobrador suga o sangue monetário do pedreiro, melhor, do servente de pedreiro, subcategoria do subemprego no submundo do ser humano, subitamente somos tragados para a “subdignidade” subindo em um ônibus sem humanidade, mas com valor de super-humanidade.

Jornal, notícias, mais do mesmo, espere.... Algo novo, quebradeira, baderna, vandalismo, criminosos quebram ônibus, incendeiam, mascaras, pedras, polícia, inferno nas ruas, tudo por conta do aumento da passagem, isso é coerente, podem fazer isso por conta de um reajuste? Mas não seria também um crime cobrar mais caro por um transporte ruim enquanto pessoas passam fome, moram em periferias sem asfalta, sem posto de saúde, sem ao menos dinheiro para o básico?

Quanta dúvida bombardeia esse Vietnã que é a cabeça de Pedro, mas ele não pode refletir sobre isso, tem que deitar e dormir, a chuva não para, a vida também não, tem que acordar as cinco da manhã para pegar o ônibus e ir trabalhar, quem sabe ele sonhe com um mundo melhor nesse intervalo, quem sabe o mundo acabe e todos morram nessa noite, quem sabe todos os ônibus foram incendiados, quem sabe, mas Pedro sabe que que tem que ir embora, o tempo não para, consome a alma e leva a noite embora e traz a labuta de volta, rodando, girando, circulando como as rodas do ônibus, com o preço absurdo como a passagem do coletivo urbano sem urbanidade, para carregar seres sem vida, quem sabe Pedro não sabe disso.