terça-feira, 20 de agosto de 2013

MORTE E COCA-COLA



Aquele pão de queijo molhado dentro da boca com saliva e café descia suavemente pelo brusco esôfago do garoto, ele comia devagar e sentia a massa mergulhar em seu estômago, a fome era coisa do passado, agora a sede tomava conta de sua consciência, sua consciência-sede secava seus pensamentos, secava suas lágrimas, deve ser por isso que ele não chorava, na verdade achava graça da desgraça liquida que descia pelos olhos dos adultos naquele espaço, naquele momento, momento de passar para outro parágrafo.
Sangue, um rio de sangue desce pelas portas do elevador, a cena cinematográfica lembra o garoto que o mundo tem sangue jorrando atrás das flores dos namorados, o corpo no caixão é de um parente próximo, seus pais estão comovidos, a emoção é latente, bate dentro do corpo mais indecente, mesmo os corações mais impertinentes, o garoto não chora, apenas olha o corpo no caixão, sabe que ali não há mais aquele velho rabugento, não há mais um humano, nem um animal, apenas uma massa fria e sem vida, uma lembrança de dias rindo sentado na calçada, memórias de um ser que já amou, gozou e duvidou da felicidade, Pablo, o garoto, sentia orgulho de ser superior e não temer a morte.
Enquanto assistia o desenho Pablo se lembra do velho no caixão, seu avô, lembra que sempre imaginava seus pais mortos, deitados em um caixão, Pablo sempre achou, mesmo com cinco anos de idade, que se preparando para as desgraças da vida sua vida seria menos desgraçada, frustrada, cheia de culpas, Pablo sempre se preparou para a foice que ceifa a vida, nada é para sempre e sempre ele pensou assim.
Assim foi o dia, sem mais nem menos, a calculadora galáctica não é uma aritmética de mercado, não há lógica no caos, apenas o acaso e por acaso Pablo se lembrou de um sonho onde ele anda nu pelas ruas, envergonha tentava se esconder, sonhos são sempre estranhos, estranhamente ele se lembrou desse sonho, as vezes sonhava que estava caindo, a vida é uma queda, mas ele nunca gritou de desespero na queda da vida, olhou sempre para o buraco do abismo com um sorriso irônico, sonhos, apenas sonhos.
A criança brinca enquanto Pablo toma seu café, comendo pão de queijo seus olhos percorrem o gramado onde seu filho corre, pensar que um dia esse ser vai morrer lhe trás melancolia, ele é forte, isso não é o bastante para abalar seus espírito materialista, ele viu seus pais morrerem e não derramou uma lágrima, lágrimas são pesadas demais para suportar, nada é para sempre e sempre ele pensou assim, mas é seu filho ali correndo pelo gramado, não podia pensar tão mesquinhamente, a mente não mente quando o coração acelera, ele aguentava mesmo o peso da vida, Atlas do sertão.

A televisão brilha no canto esquerdo da sala, uma notícia abala os espectadores, dois homens matam e estupram uma criança, o sangue parece jorrar pela tela do aparelho, Pablo assiste aquilo comendo calabresa, no intervalo do telejornal uma propaganda da Coca-Cola, sabor do pecado, sua boca enche d’água, mergulha no seu íntimo e não pensa na barbárie e violência gratuita, pessoas comuns estariam chocadas com o crime noticiado, ele apenas espera uma morte sem um final shakespereano para si, ele nunca chorou em funerais, não quer que chorem no seu. Um sonho a noite abala Pablo, os estupradores estão chorando em frente a um caixão, dentro do caixão Pablo vestindo terno cinza bebe Coca-Cola enquanto espera seu enterro, ele acorda, enquanto escova os dentes chora, chora como uma criança, o sonho o lembra de um amor escondido no inconsciente, uma mulher que ele amou e foi enterrada em sua memória com sabor de refrigerante.

domingo, 14 de julho de 2013

...E MAIS NADA.



O inverno chega mais cedo aos corações acesos, aos homens sem coração, aos novembros sem noção, o inverno chega mais cedo no inferno astral, no mapa desenhado a mão nos peitos calejados, nas mãos que afagam serpentes venenosas, o inverno gela tudo que respira, rasteja, beija e almeja um lugar ao sol. No horizonte uma luz, ela se desmancha como um sonho em frente aos meus olhos cansados de tanto ver, cegos de tanta esperança, o frio gela os poros, entra pela porta e esfria a emoção, enquanto ouço o chorar de uma criança penso no estado, esse gélido monstro, penso nos descamisados, esses gélidos corpos sem alma, sem dinheiro, sem nada e nada mais penso além disso no final de tarde gélido onde a luz some e a escuridão soa com barulho silencioso ao som de uma gaita como trilha de western espaguete.
A luz agora é uma representação em minha mente, ela se confunde com a luz da lâmpada, mais uma vez a criança chora, penso nas palavras pedagógicas de Maquiavel, o mesmo que rompeu com Platão e Aristóteles e deu o ponta pé inicial da ciência política, ser amado ou ser temido, ser ou não ser, cair sem chorar no abismo, já confundi poetas e filósofos em uma ação epistemologicamente caótica agora penso que pensar é um cogito que vem depois da existência, a música estronda, vejo em minhas enrugadas ideias um cowboy em um duelo, o final de tarde é mesmo monótono.
A música parece sumir no final da avenida que cruza a curva de meus ouvidos, o choro da criança fica mais baixo, nem Marx me convence mais sobre a exploração do Estado, o frio sopra lá fora, os românticos desejos somem aqui dentro, uma revolução francesa derruba a bastilha de meus ferimentos, de meus sentimentos, não sinto mais, mais nada sinto por ela, me lembro como era verde os pastos naquele mês de chuva, naquele ano que nem me lembro mais, mas teimo em me lembrar mesmo assim, foi a última vez que a vi, foi a última vez que beijei aquela boca que vomitava palavras desenfreadamente, falava de Nietzsche como se falasse de cinema de sessão da tarde, comentava sobre arte, sobre espiritismo as avessas, ela já amou uma vez, amou loucamente assim como loucamente se agarrava a meu corpo num frenesi assimétrico e sem vergonha na hora do sexo, ela perdeu a vontade de amar depois de não ser correspondida por seu amado, ter sido deixada com um filho preenchendo seu ventre era algo desagradável, a marcha para o oeste de sua alma começou ali e desaguou num beijo solitário no vento embaixo da árvore onde fizemos amor numa tarde de novembro, logo depois ela me abandonava assim como fora abandonada um dia, um dia frio para lembrar disso, as notícias no jornal mostram jovens protestando por todo país, algumas ondas de vandalismo político, rousseana imagem, a imagem dela chupando meu membro era vertiginosa nesse fim de tarde, ela empinava suas nádegas num ato animalesco enquanto em desfrutava de seu corpo, embaixo daquela árvore onde gemeu pela última vez ela se despediu com um beijo imaginário e partiu partindo também meu coração.
Música africana, tão vago quanto falar música francesa, tocava algo no rádio do vizinho, eu fumava e via a fumaça sair pelos ares assim como saia nostalgia de meus dedos enquanto escrevia sobre Ana, ela partiu e deixou um vazio, o vazio pós-moderno faz com que nos perguntamos para onde vai a política, nosso sonhos, as utopias caíram com um muro, mas do escombros saiu uma poeira que mostrava que ainda há pelo que lutar, lutar pelo amor, assim lutei, como era belo seu rosto nas tardes de Abril, ela abriu o vestido e mostrou seu seio cheio de prazer e nele mergulhei.

O frio dá uma trégua, mas o frio de meu ser  continua, aprendi com Ana a ser gélido, não me emociono com velórios ou reportagens de pessoas passando fome, não choro com músicas sentimentais, o choro de uma criança volta a me incomodar, talvez seja o filho de Ana chorando em algum lugar, ela perdeu o bebê num ano frio, num ano em que conheceu Fábio, aquele jovem fanático em política que iria se transformar em um escritor fantasma, em um jornalista fracassado, iria se transformar em mim e em mais nada.



sexta-feira, 7 de junho de 2013

NOTÍCIAS DE JORNAIS SÃO BELAS E A SEDE SE MATA COM SANGUE.



A boca seca, a sede percorre minhas entranhas, leio algo estranho, assassinato em massa de cachorros em algum lugar do Brasil, não levanto para beber água, não levanto para gritar contra o sangue derramado. Semana passada li sobre jovens mortos em chacinas, pessoas mortas em guerras, mulheres estupradas sangrando por dentro, violentadas por fora, dilaceradas em algum lugar da alma, não levantei para beber água, a sede percorria todos meus órgãos, podia sentir a falta de água em minha consciência, o nada dadificava a seco o mundo dentro de mim, a água não molhava minha boca, os cachorros mortos boiavam em minha imaginação junto de soldados fuzilados em alguma guerra longínqua, perdida no tempo, não levantei.
O barulho no portão, cachorros latindo na rua, o som do violão ensurdecia a noite, batia no silêncio de minha solidão, eu com sede passava os olhos nas notícias, em vídeos eróticos, em fotos coloridas, o som do coração batendo não era ouvido por mim, eu me lembrava de algum beijo adolescente atrás de uma árvore, pessoas penduradas em árvores com cordas no pescoço são assustadoras, assim como é assustador se enforcar na corda da liberdade e se angustiar com decisões tomadas, a angustia dilacera o pensamento de qualquer vivente, eu espirro, a poeira em meu quarto suspende e enche meus olhos de sonhos com desertos, não levanto para beber água, me excito com fotos de mulheres nuas.
Uma música psicodélica, mais notícias, corrupção, saudosismo, gol, pessoas passando fome, governos ditatoriais, se o voto não fosse obrigatório essa massa estúpida e acéfala não votaria nessa massa verborrágica de vermes engravatados, se o mundo não girasse não seria engraçado, desgraça é uma palavra poética que combina com respirar, arames farpados, campos de concentração, pessoa esticando os braços, os cachorros mortos na notícia ainda estão lá, apodrecendo junto de comunistas e seus muros derrubados.
Pessoas ouvindo músicas sertanejas e bebendo, jogos de futebol gargalhadas, nada de discussões sobre melhorias salariais, sobre a arte após segunda guerra, nada de olhar para as nuvens e tirar frases estéticas sobre o branco mergulhado no azul, sobre o sangue e o pus saindo de pessoas ainda em vida, mas mortas para o sistema, nada de indignação com o caos da saúde, beijo a mulher em pensamentos, coloco meu pênis em sua boca, ele mergulha em sua molhada cavidade bocal, depois puxo seus cabelos, bato em suas nádegas e gozo dentro de sua vagina, acordo, lavo o rosto, não levantei para beber água enquanto lia essa história e notícias sanguinolentas, os cachorros estão lá.
O desencantamento do mundo, a morte de deus, os tomates verdes e fritos, o vento que levou todos os sonhos utópicos, as vaias aos militares, as ditaduras eventuais, as pessoas merecem suas derrotas, merecem seus governos, são imperdoáveis, os cachorros ainda gritam na escuridão, a notícia ainda vibra nos olhos, corpos e mais corpos, levanto, bebo água, como uma maçã e me lembro da música do Raul, mas os cachorros não vivem mais, mais nada há de sensato no mundo, no mundo nada mais será depois de nadificado pela consciência, guitarras, solidão em meu quarto, desligo a lâmpada, o sangue espirra em mim, acordo, lavo o rosto, enquanto leio essa história o mundo gira lá fora e aqui dentro matam cachorros por 5 reais.



quarta-feira, 1 de maio de 2013

...E A MÚSICA FALAVA DE AMOR



Eu olhava sem perdão para aqueles corpos queimados de sol, mulheres, crianças, homens, todos desalmados pelo calor, todos desfigurados pela miséria, água gelada, óculos, brinquedos, todo tipo de coisas baratas vendidas nos semáforos e eles ali sendo devorados pelo sol, fico dentro do carro com o ar condicionado ligado, na frescura do meu automóvel olho preguiçosamente para a massa humana fora do veículo, olhar sem meia culpa, não sou personagem do Dostoevsky, abro minha mente e dentro dela povoa seres bestiais, personagens naturalistas, são aqueles seres ali queimados pelo sol, o câncer de pele deve ser a próxima etapa, a menina de calça jeans e blusa branca já foi bonita um dia!
A música toca, a pintura se torna uma borra, meus olhos não penetram na sensibilidade, não fico emocionado, bebo mais um gole, o dia foi indigesto, digiro, dirijo, viro e me deito nos braços da indiferença, a música parece falar de algo como amor, me lembro daquelas mulheres na noite passada, se prostituindo enquanto eu comia batatas fritas, engolindo esperma enquanto o mundo engolia o orgulho e continuava a girar sobre si mesmo, em si a verdade não é verdadeira, eu verdadeiramente duvido de tudo e tudo isso não me cheira bem, a verdade é relativa, as pessoas queimadas pelo sol trabalhando para continuar respirando, elas não sonham, não amam, não refletem sobre sua existência? Elas são humanas, felizes, quem disse que homem que corria sem deuses, medicina e filosofia para dentro de uma caverna não era feliz? Muitas perguntas, poucas respostas, a música continua, amor, ela fala de amor.
Amor, ouço essa palavra saindo da boca de uma mulher de trinta anos, vestido colado no corpo, não sei seu nome, ela senta com sensualidade sobre meu pênis, me agarro em seus seios, a chamo por nomes indecentes, por fim ela fuma um cigarro e eu assisto televisão, não gosto de mulheres que fumam, me lembro dos trabalhadores do semáforo, já fui trabalhador assim, hoje curto a preguiça, tenho preguiça até intelectual, mas ainda consigo ler frases de jornais, as notícias não me excitam, a boca dela sugando meu membro me excita, o êxtase é total, sou tão vazio, me falta algo, como para preencher o vazio, a comida não é tão eficaz.
A música se repete, dentro do meu carro ouço a música que fala de amor, me lembro de que já chorei olhando um catador de papel esquelético andando na chuva, era adolescente, cheio de paixão política, nunca chorei por uma mulher, aquela prostitua já chorou por mim, ouço a música com um pouco mais de atenção, o vazio toma conta de mim, resolvo ir ao encontro de uma pessoa, não amo, não mais, mas não me assustaria se amasse de novo, o carro dança pelas ruas, imagens aprecem em minha mente, a música fala de amor.

Se um meteoro caísse agora iríamos todos morrer, um meteoro bem grande é claro, faríamos falta para o universo? Duvido, aqueles políticos corruptos, essas meninas de mini saias, traficantes, trabalhadores noturnos, filósofos, seríamos como os dinossauros agora, nada! Continuo meu caminho, ontem falei com ela, a beijei, depois de cinco anos reatamos, ainda não a amo, tenho algo grande em mim, o vazio diminuiu, a música que fala de amor já me toca com um pouco mais de ênfase, os trabalhadores do semáforo continuam miseráveis, o ar está ligado, meus vidros fechados, o sinal fica verde, já não penso mais neles, a música fala de amor, de amor, de amor...

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O AMOR E O SANGUE.



As paredes do quarto eram pálidas, não transmitiam emoção, ela olha as roupas de cama sem brilho e sua roupa sem vida, nada alegra seu coração, o soro pendurado, o velho sonolento no leito ao lado, palavras silenciosas, monólogos mentais, ela dialogava com a janela, dela saia um pequeno raio de sol, tímido como uma virgem. O ar pesado pesa sobre sua cabeça, Márcia olha para o espelho do banheiro, ela sorri amarelamente, suavidade de ânimo, voltando ao seu leito ela pensa no beijo, no abraço daquele homem que tanto se parece com ela, mas ele é tão frio.
O livro de Jó parece interessante, o sofrimento humano fica pequeno diante dos desígnios de Deus, o velho testamento traz uma justiça mais sanguinolenta, mais feroz, menos “paz e amor” do novo testamento, se Jesus tivesse nascido naquela época ele iria crucificar ao invés de ser crucificado. O crucifixo fixado nos corações traz a lembrança de vidas amargas, de esperanças leitosas, de amores corrosivos, a tristeza com a história de Jó é aliviado com o sorriso daquele homem ao lado, Márcia o conhece, já se falaram algumas vezes, ele é simpático, sorriso discreto, ela parece estar apaixonada por ele, apaixonada pelo magnetismo do olhar de Walter. No hospital Márcia se lembrava daquele dia na igreja, o velho vomitando não tirava o prazer de momentos tão agradáveis, o sangue saindo e se misturando ao soro, ela já viu coisa pior, o beijo de Walter agora era sentido mais uma vez, ela adormece com a dor que a fez dar entrada no pronto socorro, a dor de Jó é só uma metáfora para discussões filosóficas.
As folhas coloridas caídas no meio do caminho, um ar romântico no passeio de domingo, Walter falava coisas agradáveis, segurava com firmeza a mão de Márcia, ela estava convencida que havia encontrado seu grande amor, sempre nos convencemos de algo e sempre esse algo depois nos coloca em dúvida, ela não duvidou, a segurança leva ao inseguro respirar, ela respirava o ar do amor, o amor precoce de juventude.
O corredor parece um funil para a eternidade, olhando para ele ela se perdia, a fraqueza também contribuia para a vertigem, enfermeiras andando para todos os lados, soros, remédios, curativos, tudo registrados pelos olhos lânguidos de saudade, fracos de verdade, sem lágrimas, Márcia olhava para o corredor do hospital como se contemplasse a nave espacial de 2001, não havia mistério naquele prédio, havia mistério com o homem que lhe jurou amor eterno, seu jeito de sorrir era estranho, ele era bom demais, amável demais, tudo que transborda é preocupante, suas qualidades transbordavam e inundavam os rios de dúvidas, ela não percebia nada, nadava nas águas do amor, do prazer até se afogar no amar de tanto amar e remar para as praias feias do racional.
Com as mãos amarradas ela assistia a tudo, aquele homem tão amável e sensual agora segurava uma faca com maestria, o brilho de seus olhos eram demoníacos, ele não suava, tremia ou vacilava, frio como uma geleira, gelava sua vítima com seu turbinado ser, sua expressão maníaca. Com a faca Walter retalhou a carne da mulher amarrada na cama, ainda viva ela gritava, o sangue espirrava no rosto de Walter, esse sentia uma alegria mórbida com os pingos vermelhos no seu corpo, Márcia amarrada a uma cadeira assistia tudo horrorizada, depois de retalhar sua vítima, agora morta, o amoroso amante tira a roupa de Márcia e a obriga a fazer sexo com ele ali mesmo naquele açougue humano, enquanto  Walter gozava sobre o sangue Márcia chorava, sua lágrimas refletiam o vermelho do cenário, a cena se repetiria mais três vezes até serem descoberto em uma cabana, Walter saiu algemado de lá com uma tranquilidade divina, Márcia deixou seu amor retalhado junto das carnes das vítimas.
Uma música toca baixinho, o velho escuta aquele tango como se ouvisse a voz de um professor, Márcia com seu jeito reservada deitada virada para a parede ouvia a música que chegava até ela com uma melancolia serena, as lembranças dos vermes passeando sobre os corpos das vítimas de Walter ainda eram presentes em sua mente, eles bailavam ao som do tango, o amor também seria um verme, Walter seria um verme? Aqueles vermes que escorriam pelos corpos mortos não eram maus como Walter, não eram arrebatadores como o amor, eram simples, eram sobreviventes, Márcia era uma sobrevivente, ela não chorava mais, não amava mais, nunca mais amou, nunca mais sentiu prazer, se tornou fria como Walter, mas não matava pessoas, matava sentimentos que brotavam sem consentimentos em sua epiderme e transpirava o rancor para longe dela. Walter a salvou de um mundo passional e a jogou na cela do mundo racional, ela imaginava o sol lá fora, a beleza do mundo não passa de desculpa para não vivermos de forma mais pragmática, Walter era como Jó agora, apenas uma metáfora.