sábado, 18 de agosto de 2012

SEM PIEDADE.


Os óculos no rosto, o itinerário mostrava que era aquele ônibus que ele deveria pegar, entra no veículo com seu rosto misterioso, senta fleumaticamente na cadeira, olha pela janela e vê lojas em movimento, pessoas ficando para trás, vê um caos urbano explodindo, tudo saindo absurdamente do nada e penetrando em sua alma pelos olhos, olhar o mundo e não ter respostas é uma tragédia que nos acompanha. Ele desce no ponto mais próximo de sua residência, a mulher de vestido estampado desce também, ela sempre desce naquele local, ela mora na mesma rua que Antônio, eles não se falam, não trocam olhares, ele é silencioso demais para isso.
Uma fotografia guardada dentro da bíblia, Antônio a olha com lágrimas quentes a rolarem pelo rosto, nada de breguice, nada de sentimentalismo barato, o homem que olha a fotografia é um touro indomável que matava mulheres, crianças, qualquer ser que respirasse, matava por dinheiro, por raiva ou vaidade. Antônio lê o êxodo, seu livro preferido do velho testamento, aquele Deus Jeová que mata todos os seres que não estão na arca é um exemplo para ele, um espelho de força, Antônio não matava mais de dez anos, havia aposentado, se arrependia por algumas mortes, outras ele não se importava, umas cinco ele festejava, assim era aquele homem que lia a bíblia de forma tão calma.
Mais uma vez ele desce no ponto próximo a sua residência, mais uma vez a mulher de vestido estampado desce com ele, ela se pergunta por que esse homem que mora perto dela não fala com ninguém, ele é tão misterioso, tão excêntrico, sua calma ao andar o faz também tão frio, ela o olha e vê um homem atraente, um homem com a beleza madura dos cinquenta. Andando ao seu lado ela tropeça, cai e machuca o joelho, ele a ajuda a levantar, sem graça agradece o homem de óculos e olhar profundo, ela se emociona com a tristeza do olhar, acaba o convidando para tomar um café em sua casa.
Enquanto Ângela servia o café a Antônio ela pensava como seria a vida desse homem, de poucas palavras, solitário e com uma melancolia perdida no canto do olho, ele bebia o café sem cerimônia, conversaram pouco, ela perguntou sobre sua vida, quase nada ele respondeu.
Com a boca fedendo a cachaça ele chega até o local descrito em uma folha de papel suja, acende um cigarro que brilha sua chama no escuro, a fumaça que sai das narinas se misturam com a escuridão noturna, um certo ânimo apela ao coração de Antônio, mas ele se mantem calmo. Seu revolver se ajusta a sua mão como uma luva, ele entra na casa como se dançasse balé, havia até certa elegância no falar tranquilo, pergunta pelo Carlos, ele estava no quarto, Antônio entra no recinto e com precisão acerta três tiros na cabeça do alvo, o sangue escorria pelo lençol branco, a mulher e as duas criança olham assustadas para aquilo, gritos, choro, Antônio sem piedade mata as crianças e a mulher, ele não treme, seu coração não bate mais forte, ele sai da casa com o cigarro acesso, a fumaça sai bailando pelo ar, aquilo foi a mais de dez anos, agora ele toma café e conversa com aquele mulher de vestido estampado, ela o olha com desejo.
Ele olha para o lado, o corpo nu de Ângela adormecido em seus braços, depois do café veio algo mais quente, os beijos ardentes de Antônio, a pegada forte, o abraço forte, ela não resistiu e se entregou ao homem sem passado, aquele ser de olhar triste que tanto a alegrava agora. Ângela nunca soube do passado de Antônio, esse nunca fez questão de falar, a foto velha que ele guardava dentro da bíblia era de uma mulher, uma que ele amou, amou tanto que a matou em um momento de fúria, esse homem com um passado tão cheio de culpa hoje é apenas uma incógnita, uma pergunta sem respostas.
Na igreja hinos de louvor, Ângela canta e agradece aos céus pela sua vida, pela sua felicidade, Antônio olha fixamente para o teto da igreja, algo bonito, algo transcendente toma conta dele, ele consegue ver algo além, vê dentro de si a imagem de um ser mágico, de um Deus, do mesmo deus judaico da bíblia, o mesmo que ele admirava tanto pela sua justiça, por matar por uma causa, Antônia já havia matado muito, na maioria das vezes por dinheiro, algumas por raiva, mesmo o seu grande amor não foi poupada. Ângela aperta firme a mão dele, saindo da igreja eles passam em frente a um cemitério, Antônio fala para ela bem baixinho que naquele lugar havia uma paz, um conforto, ele se sentia bem em cemitérios. Naquela mesma noite eles transaram e adormecerem como faziam rotineiramente no início do relacionamento.



quarta-feira, 8 de agosto de 2012

TÁXI AMARELO


Escrever, colocar no lugar antes branco um colorido de uma vida, manchar com palavras a vida, dá um tom de vermelho as paixões, ao sangue derramado na esquina, pintar de cinza as emoções reprimidas, ao olhar de um dia de chuva, ao psicodélico choro melancólico ao som de pink Floyd, escrever é gozar, é chorar, escrever é desabafar coisas nunca sentidas, é sentir algo como se não fosse real, é ver a realidade fantasiosamente, é brotar da terra dos sonhos cuspindo pesadelos, escrever é mágico, é o mundano sobrenatural, é a metafísica do desencanto, é a corneta do apocalipse antes do desencontro.
Escrever é traçar com linhas tortas vidas amargas, é deslizar letras que buscam o doce das palavras, descrever o mundo sem juízo, o prejuízo de vidas felizes, todo escrever é dor, amor, rancor, perdão, todo escrever é lembrar, é esquecer, escrever é repetir o inédito, é o que não muda abaixo do sol, mesmo quando as trevas mudam nossa escrita.
Escrever é narrar aquilo que passa pela minha mente quando vejo a cor amarela, o amarelo me lembra o táxi, foi no táxi que encontrei aquele homem, sua fala irônica, seu modo debochado de encarar as desgraças da vida, foi ali que o vi pela primeira vez, desde então minha vida cruza com a dele, entre encontros e desencontros, entre sinais fechados, aberturas apocalípticas, eclipses da razão, a desrazão da ótica psicodélica, se falo sem nexo deve ser por que não havia lógica no mundo dele.
Um som, uma nostalgia, me lembrei de dias de chuva, de meu ex namorado, ciúmes, pouco diálogo, me lembrei de minha mãe, aquela mulher com gosto de socialismo misturada com judaísmo e vinho. Meus cabelos loiros soltos soltavam o peso de minha memória, agora estava com gosto de uva na boca, saudade nos olhos e uma imagem, a imagem do homem que conheci em um táxi, o amarelo, a música, o comunismo de minha mãe, o realismo fantástico de minhas leituras, gostaria de revê-lo, como era constrangedor saber que ele era irresistível, seus beijos saborosos, seus abraços apertados, sua visão exagerada, suas leituras de Machado, sua libido desenfreada, como era gostoso mergulhar em seus braços, gozar olhando para seus olhos castanhos ou de costas com ele puxando meus cabelos loiros, sedosos e todos entregues a suas mãos.
Escrever é passar pelas torturas da mente, por ditaduras da liberdade sem volta, cair no abismo sem gritar é ato de coragem, o escuro do abismo é descrito com escritas corajosas, minha angustia, saber que a morte é o limite, não ter resposta para a vida, não ter alternativa ao capitalismo, tudo isso é descrito por minha mente, escrito por minhas mãos, mas o amor reprimido, o desejo escondido, minhas lembranças daquele homem alegre e cheio de citações de Nietzsche não são bem escritas, saboreadas pela leitura.
Tenho medo da vida, ela me engole e cospe fora, foi em um dia de chuva que entrei no táxi, o motorista era um homem moreno, maduro, seus quarenta anos eram apagados pelo seu sorriso de garoto, sua fala macia e cheia de malícia me encantaram desde o início, sua ironia quando falava de política, sua verbalização quando debochava da religião, bem, minha espiritualidade era abalada pela sua beleza ateia. Era um dia de chuva quando o táxi amarelo bateu, o sangue escorrendo pela rua, chorei como se o mundo houvesse chagado ao fim, hoje escrevo desnorteadamente sobre um homem que não vejo a mais de vinte anos, não o amo mais, não tenho desejo por ele, ele não existe mais, seu corpo já foi banqueteado por vermes gulosos, meu amor foi enterrado em um passado maravilhoso, como é bom escrever, enquanto escrevo dou vida aquele homem fã de Machado, fã de risadas, aquele homem que tantas vezes  me fez gozar a vida e excitou meu corpo hoje é apenas uma escrita em minha memória.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

O SOL E O CÃO.


Escovar os dentes é um ato tão mecânico, tão repetitivo, não tem nenhum charme, a beleza da manhã está tão cinza, olhar e não ver sentidos esculpidos em fantasmas religiosos, em construções filosóficas, o amor não é o bastante, bastar é muito para essa vida. A música toca no aparelho velho e empoeirado, a pasta dental deixa um gosto estranho na boca, a poeira do móvel fica mais visível ainda com a entrada da luz do sol pela janela.
A camisa branca, sapatos brilhando, chaves do carro popular e com parcelas atrasadas, uma mordida no pão com requeijão, um gole de café frio do dia anterior, sai apreçado, na rua tudo parece repetir o cronograma fatídico de todas as manhãs, a rotina parece ter sido escrita nas estrelas, ele vai para o serviço, esse lugar macabro, necessário e que ele sente falta nos domingos solitários.
A volta, o dia começa a cair no abismo, o sol com seu tom alaranjado mergulha calmamente no horizonte, um cochilo, um animal entra rápido em sua frente, ele escuta algo passar por baixo dos pneus, para. Um cachorro ferido, ninguém a vista, ninguém para reclamar do acidente, ele pega o cão.
A dor, um paixão do passado, uma utopia não realizada, um dente infeccionado, uma guerra com o presente, uma dor, mas a dor que não o deixava dormir era a tal da pena, a dor do cão, o cachorro “chorava” de dor, a noite ficou enorme, ele acaba levando o animal a um veterinário, pronto, está salvo e a dor diminui, ele não gosto de animais, na verdade Flávio não gosta de nada que lhe dê pena, raiva, amor, ele se afasta dos vivos e se aproxima de mortos congelados em livros, o animal fica em sua casa, uma presença incômoda, ele limpa a poeira, a música, o gosto estranho da pasta dental, uma lembrança da infância, uma separação meses atrás, uma corrida sem chegada, sua vida naquela manhã passa como um furacão pelos seus olhos.
Camisa branca, sapatos brilhando, café quente do mesmo dia, um sorriso amarelo no rosto, novos projetos e um cachorro deitado na sala, ele sai para mais um dia de rotina, a vida continua caótica, seu serviço continua o mesmo, mas sua vida está diferente, apenas um detalhe, a vida é mesmo uma colcha de retalhos cheia de detalhes, o sol brilha e entra pela janela, a desgraça rima com a graça, o divino não é algo transcendental, é algo animal, aquele ser ali deitado no canto, Flávio se lembra de sua ex-esposa, de seu filho morando do outro lado do país, ele se lembra de amigos que perdeu, o cão come lentamente e olha para Flávio, Flávio lentamente olha para dentro de sua vida, ele deve limpar a poeira dentro de si também.
Amanhã chega sem pedir licença, mais um dia, mais um respirar, o sol continua em seu lugar, o mundo não muda facilmente, o gosto da pasta dental também é o mesmo, o gosto ao sair pela porta da frente mudou, o cão late com sua saída, o medo de continuar nesse mundo é abandonado, ele sai com sua camisa branca, seu sapato brilhando e com novos projetos no olhar, viver é mesmo uma ousadia.

sábado, 28 de julho de 2012

MOTEL PARAÍSO


A luz da lua não ilumina minha alma, o carro desce a avenida, cheio de gasolina, cheio de mim, vazio de alguma coisa, não sei o que é, passo por lojas fechadas, bares abertos, pessoas, ar frio, um mistério ronda a negritude que cai sobre a terra, o carro continua sua viagem rumo ao prazer.
Passo rápido para não perder o farol verde do semáforo, a curva, o carro, a saudade, vou indo, o telefone não toca, fico aliviado, ela deve estar dormindo agora, penso eu em voz alta, deixei a namorada que não amo com uma mentira e fui atrás de uma amante que não me agrada, apenas o sexo me atrai nela. O carro desliza sem sentido, sem parar, ela me espera em frente a farmácia, seu sorriso bestial, aquela fala de menina chata, sua ignorância me dá náusea, mas ela preenche alguma coisa, ela entra. Vamos embora.
O motel, o nome é sugestivo, Paraíso, lá dentro reinará luxúria, um pecado capital, dentro do paraíso queimará um inferno de prazer, entramos, ela me agarra com vontade, o beijo é excitante, ela desce minha calça, ela chupa meu pênis com calma, molha ele com prazer, saliva todo o seu tesão, eu passo minha língua pelo seu corpo, mergulho ela pelo seu louco desejo, adentro sobre sua vagina, seus gemidos condenam o silêncio. Seu cabelo, eu puxo seus negros cabelos enquanto estapeio suas nádegas brancas, agora vermelhas, coloco meu membro dentro do seu corpo, ela rebola sobre ele como se estivesse em um carrossel, ela brinca com meu corpo, eu levo a sério todo aquele momento, gozo sobre seu rosto, ela é puro veneno.
Abro uma cerveja, olho para aquela mulher deitada e sorrindo, não a amo, assim como não amo a mulher que se diz ser minha namorada, um vazio penetra no quarto, deixo a cerveja e vou tomar banho, ela sorri novamente, entro vagarosamente, ligo o chuveiro, a água cai. Dentro do banheiro penso que quero ir embora, já tive o que queria, aquela mulher não me serve mais, como sou mesquinho e egoísta, parece que de fundo toca uma música, uma ópera, sou o vilão dessa arte. Penso agora em um discurso político, as eleições se aproximam, sou candidato a vereador, penso em palavras como “proletários”, mas ela é tão banal e antiquada, a esquerda está tão desmoralizada, ainda sou de esquerda, quero mudar esse mundo, as estruturas, mas não consigo mudar o vazio em meu peito, não consigo mudar minha vida, estou preso a esses relacionamentos toscos, fúteis e sem paixão, apenas sexo e algumas vezes um pouco de amizade, um pouco de palavras.
A ópera toca em mim, dentro do quarto toca algo antigo, em inglês ouço uma música do Bee Gees, traz saudade, traz melancolia, transo mais uma vez com aquela mulher que conheço há anos e ainda é uma estranha para mim, o vazio em meu peito dá lugar a sussurros, coloco minha boca em seu seio, gozamos mais uma vez, agora ao som de algo mais brega, não me lembro o que tocava, o silêncio constrangedor reina depois do sexo, vamos embora, deixo ela em frente a sua casa, seu marido deve estar viajando, ela adora trair o caminhoneiro comigo, ela adora caras frios, calculistas e que tem sonhos de mudar o mundo, sim , sou péssimo com as mulheres, mas tenho ideais, quero transformar o mundo em uma república socialista, Marx também devia transar com mulheres que não amava.
Chego em casa, meu discurso está pronto em minha mente, acho que mente sobre algo, não creio mais em uma revolução, mas ainda acredito em mudanças, o progresso com tintas pós-modernas, uma social democracia nesse caos liberal, como uma sanduiche, bebo uma Coca-Cola e penso em algo que me agrade, penso em um filme, as eleições se aproximam, minha namorada deve estar dormindo, enquanto não amo alguém em específico dedico meu amor a política, a ópera toca no meu cérebro, desgovernado e partidário, bebo o refrigerante imperialista, o império do desejo bebe meu corpo, vou dormir, nesse momento as luzes se apagam e filme termina, o sono se apodera de mim, sou esse ser sem perdão.




segunda-feira, 23 de julho de 2012

MAIS UM DIA.


Enquanto escovava os dentes Isabel pensavam no seu cotidiano cheio de agenda vazia, pensava em mais um dia sob esse sol iluminando seu rosto sem expressão, seu corpo disforme, seu sorriso amarelo, mais um dia caminhando pela casa sem diversão, Isabel pensava nisso enquanto a escova dental dançava preguiçosamente em sua boca, seus olhos fitavam seu reflexo pelo espelho, o dia começou e Isabel já sentia o peso de sua existência antes mesmo do café da manhã.
Um bale´de pessoas pelas ruas, uma sinfonia de vozes, o silêncio que reina na boca de Isabel se constrange ao barulho da balburdia urbana, ela chega a seu destino, a escola a espera de braços abertos na esquina, ela entra com outras pessoas, senta ao lado de outras pessoa, assisti aula com outras pessoas, outras pessoas não dão atenção a Isabel, ela apenas olha para o quadro negro e pensa na imensidão do espaço, na escuridão que reina fora da esfera azul, lá a solidão é tão normal, tão vulgar, lá ela não é objeto de escárnio, ironia, não é pejorativo, lá a solidão é solitária e sem perdão, lá Isabel poderia dialogar com o infinito sozinha, a aula acaba, um caminhar frenético, pessoas indo embora, Isabel respira, sonha e sai sem pressa rumo a porta, mais um dia e ela mais uma vez sente isso.
Na tela aparece um desconhecido, na verdade ela está a quase um ano “teclando” com esse desconhecido, seu nome é Fábio, ele parece ser simpático, deve ser tímido e tem medo da vida como Isabel, eles falam de coisas banais, filmes que acham geniais, falam de livros, falam de suas vidas, de suas odisseias terríveis, de seu viver, respirar, sonhar, de qualquer coisa que renda uma conversa. De repente algo está estranho, ficam mudos, ou melhor, param de escrever, um convite, Fábio a chama para conhecê-lo, ele mora em outra cidade, ela tem medo, pavor de sair de seu casulo, mas se excita com a ideia de vê-lo, o mundo não para de girar, as estrelas continuam no mesmo lugar, ela decide viajar e estar perto, de colocar seus olhos negros sobre a figura que ela apenas conhece por palavras, palavras são ditas, resposta, marcado, uma semana depois irão se encontrar.
O ônibus parte naquele sábado nublado, parece que vai chover, parece que vai cair águas de ansiedade, pois Isabel não vê a hora de conhecer Fábio, o ônibus parte pelas estradas do estado de Goiás, vai rumo ao sudoeste, rumo ao lugar onde está Fábio. Uma curva, a água, a neblina, um carro na contra mão, freadas, o barulho, gritos, desgraça, como numa cena em câmera lenta o ônibus vira sua estrutura e se arrastando rumo a esquerda cai em uma descida de angustia, cai levando consigo vidas, gritos, lágrimas e Isabel. Lá embaixo com a água da chuva desce o sangue, os ferros retorcidos e amassados do velho ônibus prata encobrem o corpo de Isabel que não sonha mais, não sente mais náusea com sua existência, agora apenas não é mais uma vida sem energia. Sentado, com rosas vermelhas no colo, ele pensa no que falar, pensa no que pensar, sente momentos de frio na barriga, imagina se terá sexo no primeiro encontro, se ela o beijará no primeiro dia, enquanto vislumbra o encontro, as rosas vermelhas tremem em suas mãos, Fábio está sentando esperando o ônibus prata, Isabel, seu mundo está em festa, enquanto o sangue enfeita de tristeza a estrada Fábio espera por sua possível amada, a esperança, a espera, Fábio, as rosas, sentado, sábado, chuva, no fim apenas mais um dia nesse mundo sem explicação, mais um dia.


segunda-feira, 9 de julho de 2012

CHARUTO, VINHO E ALGUMA COISA CHAMADA VIDA


Acendo o charuto, bebo mais gole de vinho, lá em baixo existem pessoas sofrendo, aqui em cima existe um copo, álcool, muita fumaça e eu pensando na desgraça alheia. Moonlight Sonata tocando, a música vibra em meus ouvidos, o mundo se aperta em meu espírito, lágrimas escondidas descem em minha alma, é o choro de crianças com fome, eu bebo mais um gole e me imagino em Atlanta pegando fogo, é a cena de ...E Vento Levou, o vento leva todas as esperanças, todas as amarguras e deixa apenas o tempo, aquele vento sem frio ou calor.

Victor Hugo, páginas de revolução, miseráveis com coração, bebo enquanto a fumaça sai dançando pela sala, as leituras do romantismo são tão sanguinárias e violentas quanto uma bomba de Hiroshima ou Nagasaki, o belo desperdício de emoção nessas palavras são absorvidas sem perdão pelos olhos de leitores desavisados, ninguém disse que leriam as páginas de um rico burguês sem classe, de um homem sem felicidade, de um ser solto no mundo que vê a pobreza enquanto lê seus livros da sacada, ninguém disse que a música era uma desculpa para abafar os gritos, além do meu jardim existem outros seres humanos, espero que não existam perto de mim.

Poderia citar Marx, Weber, Cervantes, mas vou citar versos de pessoas não importantes, deselegantes, quero a voz da loucura ao invés da loucura da razão, quero a civilização cheia de sangue beijando os sanguinários selvagens, cavalos que correm nas nuvens, saladas temperadas com saudade, quero a vida dos miseráveis, daqueles que passam fome, lutam pela sobrevivência, quero sentir o gosto de lutar, quero sentir o cheiro de algo imundo, quero abraçar o mundo, quero viver fora do aquário. Bebo mais um gole de vinho, a fumaça não deixa enganar, sinto medo de tudo que não vivi, sinto medo da humanidade, queria estar lá em baixo, queria descer até o inferno para sentir o paraíso de verdade.

Vou pular, no abismo, da sacada, vou deixar meu corpo se espatifar enquanto pessoas comum riem do rico esnobe apodrecendo sobre seus pés, quero que eles riem de mim, de minha filosofia sem prática, de minhas ideias políticas reacionárias, quero que eles saibam que por trás de todas a minha barba, fumaça, vinho, dinheiro, cultura e falta de sacanagem existem um homem, um cara, alguém de carne, osso, sonhos e um pouco de maldade, além da blasfêmia, da outra verdade. Pulei...

segunda-feira, 2 de julho de 2012

DANÚBIO AZUL E A RAPOSA


Na mesa a cerveja parecia estar gelada, logo ficou provado que estava mesmo, ela descia suavemente pela minha garganta, refrescava meu espírito, deslizava sobre a monotonia do dia de domingo, o cantor parecia ser um sujeito simples, apenas um teclado e sua voz desafinada, o ambiente era o que poderia chamar de popular, pessoas rindo, pessoas comendo torresmo, falando sobre a odisseia da vida, cantada em verso e prosa e acompanhada pela música brega que contaminava o ambiente.
O sol brilha em cima de nossas cabeças, bebo a cerveja com  preguiça, olho com malícia para aquelas pessoas, em minha frente prostitutas fumam suavemente, fazendeiros riem ironicamente, um policial militar  aproveita seu dia de folga, duas amigas parem estar a fim dele, uma dá até uma piscadinha, a vida segue seu rumo, a humanidade caminha no ritmo do domingo, com preguiça e sem saudade. Enquanto ouço música do Amado Batista penso nos fatos recentes de minha vida, todos eles juntos não dariam uma página de livro, tenho que me afastar mais no tempo, volto a minha adolescência, a um dia de caçada, me lembro do dia que dei um tiro em uma raposa, sua boca cheia de sangue, o barulho que saia de dentro dela, a dor que ela devia estar passando, eu sorria por dentro, não matei, apenas feri aquele animal, ele entrou no mato pingando o líquido vermelho, nunca mais vi, achei interessante na hora, agora sinto pena, merda, por que não matei? Prolonguei o sofrimento, a piedade cristã é uma merda, ela nos enche de culpa, estou nesse momento remoendo passado , amargurando arrependimentos, o som toca, a cerveja desce pela boca, as pessoas reparam que estou sozinho, sozinho penso no mundo, essa caótica esfera azul perdida no espaço. No espaço tudo deve ser tão normal.
Olho para a mesa da esquerda , um casal, a mulher ri com uma cara de provocação, o homem matem uma certa seriedade, vejo que já estão embriagados, de amor e álcool, penso como seria se eu estivesse agora em uma nave estelar, viajando por outras galáxias ao som de Danúbio Azul, como um astronauta de 2001 uma odisseia no espaço, o bebê iluminado, a angustia, o salto no tempo, o enigma, tudo relativizado, penso no destino, no capitalismo, no sexo oral da noite passada, tudo misturado dentro de mim, fora de mim um mundo sem explicação, aquele bar cheios de pessoas com esperança e ilusões, o sangue na boca da raposa reaparece, eu devia ter matado aquele animal como matei vários no passado.
O sol ainda brilha, a música não melhora, agora toca forró, pelo menos é mais animado, pessoas dançando, o vestido de uma das dançarinas se levanta com o vento, como mais um pedaço de torresmo, poderia estar comento do fruto da árvore da vida e ser expulso do paraíso, nunca estivemos lá e nunca precisaremos ser salvos, a vida não é uma condenação ou uma provação cheia de pecados, o sol brilha, queima a pele, o Danúbio Azul toca em minha mente, o espaço se espalha em uma explosão atômica, o sangue é sugado, a raposa fala que não há mais culpa na humanidade, o caos reina, assim sai a frase em minha deslumbrante e demente consciência, a fala sai  da boca da raposa, o erudito som é perfurado pelo forró que toca no bar, a cerveja não me faz esquecer meu fardo humano. Meu nome é Carlos e nesse domingo vou me rebatizar, vou me chamar... No espaço não precisarei mais de nome, o domingo segue sua rotina e eu continua na Terra, sem salvação ou perdão, apenas na vivendo.