segunda-feira, 9 de julho de 2012
segunda-feira, 2 de julho de 2012
DANÚBIO AZUL E A RAPOSA
Na mesa a
cerveja parecia estar gelada, logo ficou provado que estava mesmo, ela descia
suavemente pela minha garganta, refrescava meu espírito, deslizava sobre a
monotonia do dia de domingo, o cantor parecia ser um sujeito simples, apenas um
teclado e sua voz desafinada, o ambiente era o que poderia chamar de popular,
pessoas rindo, pessoas comendo torresmo, falando sobre a odisseia da vida,
cantada em verso e prosa e acompanhada pela música brega que contaminava o
ambiente.
O sol brilha
em cima de nossas cabeças, bebo a cerveja com
preguiça, olho com malícia para aquelas pessoas, em minha frente
prostitutas fumam suavemente, fazendeiros riem ironicamente, um policial
militar aproveita seu dia de folga, duas
amigas parem estar a fim dele, uma dá até uma piscadinha, a vida segue seu
rumo, a humanidade caminha no ritmo do domingo, com preguiça e sem saudade.
Enquanto ouço música do Amado Batista penso nos fatos recentes de minha vida,
todos eles juntos não dariam uma página de livro, tenho que me afastar mais no
tempo, volto a minha adolescência, a um dia de caçada, me lembro do dia que dei
um tiro em uma raposa, sua boca cheia de sangue, o barulho que saia de dentro
dela, a dor que ela devia estar passando, eu sorria por dentro, não matei,
apenas feri aquele animal, ele entrou no mato pingando o líquido vermelho,
nunca mais vi, achei interessante na hora, agora sinto pena, merda, por que não
matei? Prolonguei o sofrimento, a piedade cristã é uma merda, ela nos enche de
culpa, estou nesse momento remoendo passado , amargurando arrependimentos, o
som toca, a cerveja desce pela boca, as pessoas reparam que estou sozinho,
sozinho penso no mundo, essa caótica esfera azul perdida no espaço. No espaço
tudo deve ser tão normal.
Olho para a
mesa da esquerda , um casal, a mulher ri com uma cara de provocação, o homem
matem uma certa seriedade, vejo que já estão embriagados, de amor e álcool,
penso como seria se eu estivesse agora em uma nave estelar, viajando por outras
galáxias ao som de Danúbio Azul, como um astronauta de 2001 uma odisseia no espaço, o bebê iluminado, a angustia, o salto
no tempo, o enigma, tudo relativizado, penso no destino, no capitalismo, no
sexo oral da noite passada, tudo misturado dentro de mim, fora de mim um mundo
sem explicação, aquele bar cheios de pessoas com esperança e ilusões, o sangue
na boca da raposa reaparece, eu devia ter matado aquele animal como matei
vários no passado.
O sol ainda
brilha, a música não melhora, agora toca forró, pelo menos é mais animado,
pessoas dançando, o vestido de uma das dançarinas se levanta com o vento, como
mais um pedaço de torresmo, poderia estar comento do fruto da árvore da vida e
ser expulso do paraíso, nunca estivemos lá e nunca precisaremos ser salvos, a
vida não é uma condenação ou uma provação cheia de pecados, o sol brilha, queima
a pele, o Danúbio Azul toca em minha mente, o espaço se espalha em uma explosão
atômica, o sangue é sugado, a raposa fala que não há mais culpa na humanidade,
o caos reina, assim sai a frase em minha deslumbrante e demente consciência, a
fala sai da boca da raposa, o erudito
som é perfurado pelo forró que toca no bar, a cerveja não me faz esquecer meu
fardo humano. Meu nome é Carlos e nesse domingo vou me rebatizar, vou me
chamar... No espaço não precisarei mais de nome, o domingo segue sua rotina e
eu continua na Terra, sem salvação ou perdão, apenas na vivendo.
domingo, 17 de junho de 2012
APENAS UM DOMINGO
Ela caminha, olha as pessoas chorando, orando, caminha
suavemente, como se dançasse balé, olhos cheios de dor, mentiras sobre o
passado, ela passa por entre olhares perdidos, ela olha no olho daqueles que
não querem ser vistos, lembrados, daqueles que nem querem, apenas estão lá.
Bíblias, caixão, um corpo, o velório prossegue, ela não é parente, amiga ou conhecida
de alguém, ela apenas caminha pela igreja relembrando seu passado cheio de
mágica, orações e mundos espirituais, ela ainda crê em algo sobrenatural, mesmo
que esse algo seja indefinido.
A água desce pelo seu corpo, sua pele, seus braços, suas
coxas, seus seios duros de juventude fazem uma ponte para gotículas brilhantes
e líquidas, sua vagina molhada de água, suas pálpebras cansadas da vida, todo o
seu corpo moreno, toda a sua virgindade serena, toda a sua falta de pureza, seu
discurso sobre a natureza, naturalmente esquizofrênica de angustia, seu corpo
molhado não lembra, seus lábios também não, sua mente sim. Sua mente lembra do
caixão, ela achava graça por dentro, caminhando na igreja ela achava graça da
desgraça, a morte é algo gozado, chega com dor e sorrisos apertados.
Ângela tem apenas quinze anos, sua boca já mordeu o veneno da
danação, seu sexo ainda não foi penetrado, sua consciência já foi perfurada
pelo questionamento, Deus ainda tem um lugar em seus pensamentos, o socialismo,
o capitalismo, a fome, todas as desavenças, lutas sociais, de classe e...Ela
tem apenas quinze anos, seus amores platônicos são diluídos em descrença com a
humanidade, sua pouca idade já ri da morte, essa besta sem qualidade, mas falta
algo em sua vida, um vazio que surge do nada e embrulha seu ser em papel
alumínio, esse vazio a faz mal, a náusea é constante, sem explicação como a
vida, sem motivação como a violência gratuita.
Caminha sobre a sombra das árvores, adolescentes se beijando,
pessoas se divertindo, dia calma, é domingo, um livro do Machado debaixo do braço,
o sol lá em cima, ela olha para a multidão barulhenta, ela olha para flores,
pipocas, risos, há algo de podre nesse mundo, há algo de indeciso, impreciso,
sem conexão ou explicação. Ângela para perto de uma esquina, os carros passam
rápido, correm procurando diversão ou fugindo do marasmo do final de semana,
Ângela pensa na vida, lembra-se do caixão. Pipocas, crianças, desilusões,
porões da memória, viagens espaciais, cupons fiscais, carimbos invisíveis,
painéis acadêmicos, tudo gira em redemoinho, em um mar rocambolesco de
vertigem, o caixão, a oração, Deus sem rosto, pessoas, esgoto, ela pensa, se
desanima, atravessa a rua sem pressa, um carro, sangue, um grito, o livro solto
no asfalto, um corpo moreno sobre o negro da rua, o vermelho, a morte, sem
sorrisos, sem explicação, apenas um domingo.
segunda-feira, 11 de junho de 2012
DIA DOS NAMORADOS
O espelho, seu rosto refletido, sua razão desmascarada, seus
sonhos derretidos, enquanto se masturbava Michel chorava, suas lágrimas também eram
refletidas no espelho, seu esperma caia graciosamente no chão do banheiro, sua
tristeza caia em seu pranto, em seu corpo, em sua alma. O espelho, reflexo, o
rosto, enquanto chorava em frente do espelho João imaginava sua infância pobre,
seu aniversário sem bolo, seus pés descalços, o pai que não conheceu, brinquedos
que não ganhou, era 13 de junho, aniversário de seu filho, ele era lembrando
enquanto olhava no espelho, no espelho Michel olhava seu rosto sem mágoa, sem
vida, era 13 de junho, dia dos namorados, sua solidão o atormentava, a
lembrança dela também, dela, Alicia, o espelho, o reflexo, o bolo, o caos, o
esperma, o sangue, pobreza, turbilhão, tristeza, a música, psicodelia, Pink Floyd, copo e cerveja, angustia,
Michel, João, Deus, o inferno, tudo hoje, nada ontem, o espelho, a sacanagem
cósmica, o amargo 13 de junho, festa.
O azul do céu, brilho, nuvens carregadas de sonho, brancas,
João encara a luz, as trevas penetram escondidas em seu mundo, Michel está
trancado em casa, carrega seu ser em suas notas, sua música, João pega na arma,
olha, a arma brilha, o céu brilha, os olhos de Michel brilham, saudade, o filho
de João ri, seu pai se alegra, o céu, o azul, a saudade de Alicia, o mundo
gira, a noite chega, João, Michel, o mundo todo se encobre de gótico, o luto ,
noite de 13 de junho, noite, sabor, de romance, gosto de mistério, terror em
transe, horror mascarado, marginais sem galáxia.
A rua, a mesma rua, nela Alicia correu com seu belo jeans,
nela João caminha com a arma, com o medo, com a vontade de comprar um bolo para
seu filho, filho, filho da puta aquela motoqueiro, assim pensa Michel, ela
morreu cuspindo sangue, o cuspe de João é seco, o medo, vai ser essa noite,
treze, junho, aniversário, filho, dia, namorados, Alicia, morte, tudo embalado,
tudo rasgado, tiras de vida, os dois penetram na noite, sem sentido.
O calor, a noite, a metamorfose transvestida, desgraçadamente
divertida, os olhos, lágrimas escondidas, será que terá coragem? João. Michel.
Alicia. Pedro, motoqueiro, andando pela rua Michel leva suas lembranças, suas
cativantes, a dor, João vê um alvo, é agora, o bolo, aniversário, medo, Alicia,
sangue: é um assalto, reação, tiro, um corpo, sangue, João corre sem o
dinheiro, Michel cai sem vida.
A rua, 13 de junho, namorados abraçados param de se beijar
para olhar aquele ser sem vida, aquele rosto solitário, Michel parece sorrir,
ele reagiu, sua vida foi ceifada, João chega em casa, seu filho, sorriso, nada
de bolo, o caos, reina, reino de dor, nada pior do que o arrependimento, cruel,
foi cruelmente assassinado, a música toca, a morte baila em cima do corpo
inerte.
O espelho, João olha, sua vida foi jogada fora, lata, lixo,
em algum lugar, sua consciência pega fogo, sua carne treme, seu filho come um
pedaço de pão, é treze, é 13 de junho, sua mulher chega do serviço, um beijo, namorados,
é o dia, naquela manhã Michel se lembrou de alicia vestida com seu rosa
preferido, o rosa foi a cor que ele viu quando seu corpo foi pintado de
vermelho. Enquanto o mundo gira, enquanto escrevo, enquanto o beijo molha,
enquanto João se move como um verme Michel não faz nada, seu corpo estirado no
chão, namorados, solteiros, filhos, putas, pedreiros, todos os homens, gays,
todas as mulheres, todos os olhares, o sangue corria, naquela manhã Alicia era
tão linda, treze, dia de morrer.
segunda-feira, 28 de maio de 2012
NO FIM.
Acendo um cigarro, ligo o carro,
a música é a velha canção do Roberto, os detalhes de minha vida se confundem
com os da música, a melodia acende uma fogueira em minha alma, tudo gira
confuso em meus pensamentos, tudo se agarra sem desespero ao passado e arrota
poesias sem sentido de futuro.
As luzes da cidade brilham em
mim, a escuridão lá fora faz parte da escuridão que reina nessas linhas, a
música já é outra, a melancolia da letra continua, não combina com meu desejo
tolo por alegrias, mentiras sinceras, quero tudo aquilo que o dinheiro não pode
comprar, quero tudo o que não existe de verdade.
Gozar falsos sorrisos, lembrar de
momentos juvenis, tocar o céu com a língua e morder pedaços de lua como sonhos
cheios de doces, carregar a culpa do mundo dentro da consciência, precipício
sem amor.
Abro os olhos, prostitutas
passeiam na noite, garotos em buscas de aventura, mulheres sem platonismo, os
olhos do autor fitam o obscuro mundo, a
fumaça do cigarro embaça minha visão, vejo agora borboletas coloridas, desenhos
em preto e branco, guerras atômicas, escândalos políticos, heresias espaciais,
amores medievais, constrangimentos gratuitos, dores no infinito, prazeres
mundanos, paixões na imensidão. Vejo a escuridão, me sega a vontade correr, a
fumaça do cigarro se mistura a meus devaneios sem freios, freio o carro, na
esquina um vazio, dentro de mim um nada.
Agora toca Rotina, Roberto canta
com sua breguice disfarçada, seu romantismo perdido no tempo, o tempo louco, o
tempo que leva toda a beleza, que traz obscenos pensamentos, o tempo mergulha
na fumaça do cigarro, o carro não para, a noite tudo é mais calmo.
Um bar, paro, entro, sento, uma
bebida, gelada como os corações mais malvados, fria como meu olhar em dia de
domingo, bebo sem vergonha, bebo o álcool amargo, a cerveja desliza por minha
garganta, a cerveja me faz sorrir. Naquele bar eu olho os tipos, casais, gays,
héteros, pessoas comendo, pessoas chorando, pessoas de todo tipo de...O carro,
já estou fora do bar, meus olhos ainda estão fitando a loira de vermelho, o
carro corre louco, sem preguiça pelo asfalto, a fumaça toma conta de mim, fumo
as alegrias reprimidas.
A música ainda é do Roberto, a
noite já não é mais minha, tudo já foi, tudo acabou, rasgo as veias desse
monstro urbano, paro em frente aquela mulher, seus cabelos ruivos, sua boca
falando indecências. Estou sufocado, quero gritar, quero correr, pego um livro
para ler, enquanto reflito sobre o mundo esqueço do mesmo, a ruiva aparece em
minha frente, seus gemidos, aquela noite.
Embriagado de tanto viver pulo
pelo espaço sideral, caio no meio do quintal de alguém, saio de mim, entro
dentro dos longos beijos molhados, a ruiva morde o amor, morde meu corpo, faz
do sexo brinquedo sem igual.
O carro não para, enquanto fico
acordado penso se a vida é mesmo necessária, o existir é mesmo algo planejado,
enquanto penso meu pé pisa no acelerador, o carro corre, uma pessoa, de
repente, um grito, um barulho, uma batida. O sangue escorre por todo lado,
sirenes, ambulâncias, enquanto o sangue escorria pelo meu corpo, eu vibrava,
algo estúpido, atropelei alguém. No fim tudo é humano, mesmo a desgraça, mesmo
a solidão, mesmo eu. No fim não há fim.
A NOITE
A noite encobre os românticos, as prostitutas, os
desesperados;
A noite encobre os boêmios, os solitários, os otários;
A noite chupa o sangue, engole o prazer;
A noite vomita palavras sem nexo, terror ou sexo;
A noite brinca com a claridade, morde a castidade
A noite explode em mil megatons, em sons infernais;
A noite cai como uma luva, queima como álcool;
A noite tem brilho, o amor tem sua coragem;
A noite vem vindo, eu estou apenas chegando;
A noite grita no silêncio, escuta os sussurros góticos;
A noite não brinca, apenas grita, a noite é assim;
A noite não pede licença, goza a vida sem rancor;
O pôr do sol encanta, rasga o vel e planta um mel amargo;
A luz rasga a carne da noite, estupra os sonhos sombrios;
A noite já chegou, o sol está apenas dormindo em nosso
coração;
Uma cor, uma rosa, um amor, um ar de inocência, uma noite
sem decência;
A noite chama os vampiros, dá abrigo a mendigos, escuridão
marginal;
A noite morre, o sol brilha lá fora, não sei mais quem sou;
Uma lembrança, uma nota, um relâmpago, desculpas
A noite é apenas uma lembrança, a memória acordou;
A noite, a noite,
amanheceu.
O dia, belo dia de canções, primavera sem noção
A noite, termina mais um verso;
A noite, beijo angelical nesse mundo anormal;
A noite, o dia, a madrugada gelada, mundo de ilusões.
A noite...Chegou em nossos sonhos, terminou nesse momento.
Anoitecer, viver.
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