segunda-feira, 21 de maio de 2012

Deixa a vida entrar


Deixa-me lamber sua pele
Deixa-me morder sua pele
Deixa-me mergulhar em seus beijos, afogar em seu desejo
Deixa-me tocar seu sexo, brincar com seus cabelos
Deixa-me soprar palavras sacanas em seu ouvido, palavras santas em sua efervescente...
Deixa-me brincar com você, mesmo sendo sério tudo o que sentimos
Deixa-me tocar sua alma, suspirar ao seu lado
Deixa-me deixar você deitar em meu carinho, engolir meu louco gemido
Deixa eu mais próximo  dos seus sonhos, dentro de suas fantasias
Deixa-me escrever sobre você no incomensurável quadro do infinito até o fim da galáxia.
Deixa-me usar subterfúgios para penetrar minha língua na luminosidade de sua boca
Deixa eu me perder no seu labirinto

Descubra-me
Me explore momentos gostosos, orgasmos platônicos
Devore-me com seus encantos
Choque-me com suas lágrimas
Sufoque-me em seus abraços, claustrofobia amorosa

Deixa a luz entrar nas entranhas sombrias de seus pensamentos
Deixa a palavra implícita pelo não dito
Lembre-me de esquecer tudo o que escrevi, falei, vivi em devaneio
Goze a vida e sinta prazer com meu delírio

Deixa a odisséia empolgante de nossa alcova e suba na estrela do desencanto
Volte a deixar meu corpo em chamas, minha memória caótica, minhas lembranças fora de ordem
 
Minha alma clama
Conte-me tudo agora e depois cante
No fim nada deixará mais marcas do que o sonho.


domingo, 13 de maio de 2012

FELIZ DIA DAS MÃES, ELIZABETE!


O sol brilhava com uma intensidade ímpar naquele domingo, sorrisos abertos, corações flamejantes, comida farta, declarações sinceras, algumas talvez falsas, mas tudo dentro do espírito de confraternização. O sol queimava o rosto daquele garoto correndo na rua, ele trazia um embrulho pequeno, era o tal presente, dentro do papel cheio de desenhos maternais havia algo simples, humilde, havia o presente que Jorge tinha comprado para a sua mãe Elizabete, nome de rainha, nesse dia ela era a rainha de Jorge, era dia das mães, dia de comer macarronada, carne assada e comprar presentes peara aquela senhora de rosto redondo, voz brava e sorrisos de madona.
Enquanto pensava no pai que o tinha abandonado a boca frenética de Jorge mordia um pedaço de carne, não é todo dia que uma criança pobre tem o prazer de se deliciar com pedaços de um animal morto em sua boca, e aquele pedaço era algo especial, era a nutrição dos deuses. O presente na mão, um porta retratos, comida no estômago, beijos e abraços, estava na hora de ir embora para casa, Elizabete e seu filho se despedem dos familiares, eles voltam para sua humilde residência na periferia da cidade.
A noite ainda era comemorado o dia das mães, já em casa Elizabete e seu filho se preparavam para dormir, já haviam banhando, jantado a comida que trouxeram da casa dos familiares. Uma batida na porta, quem seria aquela hora da noite, pensou Elizabete, ela pergunta quem é, a voz do lado de fora diz ser Sebastião, um membro da igreja que ela freqüenta, mesmo não se lembrando desse nome ela abre a porta, concomitante a entrada do homem em sua residência foi também o soco que ela recebeu em seu rosto, a porta se fecha e o show começa.
Enquanto a roupa daquela mulher em prantos era rasgada seu corpo era alvo de murros e chutes, lágrimas se misturavam a sangue, o menino atônito chorava, gritos roucos saiam de sua boca, ele não podia fazer nada. O pênis de Sebastião penetrou inúmeras vezes na vagina e no ânus da mãe de Jorge, não satisfeito em ejacular seu esperma sobre o corpo da mulher por duas vezes o homem movido por seu espírito bondoso resolve enforcar Elizabete.  
Já era cerca de meia noite, a polícia está no local, uma criança sem fala e com os olhos inchados, um olhar perdido no espaço, na sala da casa um corpo molhado de vermelho e do asco, o medo emitia odores que se misturavam com suor, sangue e esperma, o horror tomou conta da noite de domingo, o dia das mães passou a ter um novo significado para o menino Jorge.
Viaturas passam gritando, o giroflex brilha na noite, todos mobilizados na procura de Sebastião, estuprar e matar uma mãe em frente ao filho em uma data tão festejada não é nada prudente. Matas, casas, ruas, até o inferno é vasculhado na procura do marginal, a indignação e revolta são combustíveis que aceleram e dão força a caçada humana, a paixão se sobrepõe a razão, não é mais uma questão de justiça, passa a ser uma vingança coletiva, uma espécie de questão de honra banhada em sangue.
Uma noite alucinante, ela, como outras, dá lugar a mais um dia de sol e polêmica, logo pela manhã as rádios, televisões e todo tipo de mídia noticiam o fato ocorrido na noite anterior, pessoas chocadas com a monstruosidade do estupro tomam conta das ruas, nos bares, escolas, igrejas, prostíbulos, em todos os lugares há quem comente sobre o caso.
O caos brilha na mente indigente, nas periferias da consciência tomam formas todas as angustias, todas as labutas da mente, já faz um ano que Elizabete morreu, outro dia das mães, outra data comemorativa, outro dia de horror, Jorge olha para as pessoas felizes, para os pratos de comida, tanta felicidade, tanta crueldade, seu olhar petrificado não fita os rostos alegres, fita o nada, ele se perde em suas lembranças, esse carnaval de dor, tortura e encanto. Nunca mais ouviu falar do homem que retirou a vida de sua mãe, nunca mais viu aquele rosto, Sebastião foi uma ruptura entre Jorge e que chamamos carinhosamente de humanidade.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

trecho de um livro não publicado


O que leva uma pessoa a escrever um livro? A dor, o amor, a aventura, a existência em conflito, a contemplação do infinito, a falta de problema, a angustia, a vontade de criar um novo mundo, a crença na desgraça, a consciência da tragédia humana, a cômica desventura do ser, a falta do que fazer, perguntas não respondidas, óperas malditas, não há uma resposta, a pergunta é genérica, a questão aqui não é dar respostas, ser educativo, pedagógico ou qualquer coisa do nível, quero apenas dividir minhas angustias, minhas derrotas, meus saberes, meus erros, minha tragédia pessoal, meu tesão espiritual, não quero ensinar, enganar, falsificar a realidade, peço desculpas pelas mentiras ainda não ditas, mas prováveis, posso me rebelar, mas vou apenas criar uma realidade paralela ao mundo que imagino ser o meu, o que me levou a escrever? Ainda não sei, mas a última desventura da minha vida me influenciou a dar continuidade a esse projeto, a esse tormento, a essa odisséia literária pelo campo da insanidade da mente amante desse autor sem caráter, desalmado e humilde, não sou cristão, socialista, otimista ou romântico, sou apenas a dúvida pulsante nesse universo caótico, nessa vida sem sentido, no labirinto violeta da psique, na tortura carnal do espírito ateu, vou dar pausa a essa esdrúxula dramatização e vou passar para o próximo parágrafo.



O ato de escrever é sexual, agressivo, porém é contraditoriamente calmo, contemplativo, assim como a vida a escrita é absurda, um acaso do improvável, uma lógica irracional, um tapa no destino, um coito anal, uma desfiguração da beleza, uma romantização da violência, ser deus no inferno e gritar de prazer com a navalha presa na carne, cortando o gemido, perfurando a alma aflita e angustiada. Escrever é escutar o silêncio, dar vida a inocentes, ser maltratado pela palavra, criar mundos já existentes, desconstruir idéias e pensamentos, flutuar num tanque de sangue e beijar prostitutas e serpentes, ler o que já está escrito é sofrer novamente, amar irresistivelmente, é ter em mente o universo nadificante de nossas consciências.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

SEM ROMANTISMO


Eu cresci na atmosfera que cobria os céus do final dos anos oitenta, era uma época que mistura o pessimismo de uma década perdida economicamente com uma esperança lasciva pelo fim do regime militar, acompanhei a primeira eleição direta para presidente, o charmoso e corrupto Collor, o barbudo e polêmico Lula, vi a ressurreição de Batman pelas mãos góticas de Burton, a morte de Senna, programas infantis com loiras animadas, palhaços indecentes, capetas infantis. Percorri o cinema testosterona, com rambos, exterminadores do futuro, cinemas de aventura com perseguições por esmeraldas, cálices sagrados, mergulhei em lagoas azuis, viagem em naves espaciais com Han Solo e capitão Kirk, todos heróis, charmosos, elegantes, bem humorados, porém não são eles que encantam tanto, já havia um sentimento pelo marginal, pelo cômico, pelo irônico, estava surgindo uma onda de apego ao anti-romântico, ao personagem anti-herói.
Vivemos em um mundo que ainda tem uma forte ligação com o romantismo burguês e com seu modelo de herói, mesmo com essa proximidade surgem outras perspectivas, o feio, o gordo, o picareta, o mal que não É necessariamente vilão, todos aqueles que não se encaixa na cartilha do herói estão Sendo colocados em uma situação de destaque e até cultuados, veja exemplo de personagens como seu Madruga, Homer Simpson, Hannibal Lecter, Jack Sparrow, viúva Porsina, o médico House e por vai. O cinema pós-moderno, as novelas de crítica social, seriados com uma ironia ácida, a literatura do século XX, temos uma visão de personagens menos “endeusados” e mais humanos, com seus dilemas, defeitos, corrupções, fraquezas, temos o absurdo humano expressado com toda a sua excentricidade e beleza.
Caminhar por um mundo idealizado e romantizado é gostoso, descer ao inferno, passar pela periferia dos sentimentos, pela fantasia realista é um deboche surpreendente, poder rir das desgraças, curtir com a moral estabelecida, colocar os nossos anseios, frustrações e desejos em uma bandeja e servi-los, o anti-herói é essa válvula de escape para o humano reprimido em fantasias idealizadas, agora temos outras fantasias realizadas, temos outros momentos eternizados nessa vida finita, intensa e complicada.
 

sábado, 14 de abril de 2012

O VELHO CLAUDIO.


Os cabelos brancos não escondem sua idade, seu jeito curvado, seu olhar perdido, sua boca parece beijar o cigarro, a fumaça toma conta do ar, o cinza reflete lembranças amargas, às vezes o azul do céu o lembra de pequenas alegrias.
Um barulho, carros a correrem pela massa asfáltica, luzes a brilharem na noite, pessoas conversando, marginais perambulando, alegres, tristes, seres humanos boêmios, seres humanos noturnos, o barulho se choca com a contemplação do velho Claudio, com a insônia do enrugado homem e seu cigarro.
Toques de violão, música que parece brotar do passado quebrando a vegetação na qual vive Claudio, levando certa emoção a suas veias congeladas.
O chá chega com o calor da tarde, Mercedes senta ao lado do velho pensativo e fica imaginado como foi a vida desse ser taciturno, melancólico e misterioso, mal sabe ela que esse ser foi um homem violento, que feria mulheres, matava homens, batia em crianças, destroçava felicidade, queimava alegrias. Claudio era um assassino frio, um ser desprezível, imperdoável, porém humano, todos os seus defeitos, todos os seus pecados eram a mais pura essência humana, ele fazia o que era de sua natureza ignorante, de sua estupidez marcante, sua cultura arrogante.
O sol está se pondo, um laranjado poético colore o horizonte, os olhos quase cegos de Claudio se enchem de lágrimas,ele se lembra de Débora, se lembra de seu grande amor, de seus filhos, de sua casa, mesmo os monstros, mesmo os mais imperdoáveis tem seus sentimentos, tem suas manifestações mais fraternais, nas entranhas desse homem repousava um amor pela vida que lutava com sua ira e sua raivosa ação homicida. Dentro de todos nós há algo de horror que se espalha pela alma.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

UM DIA QUALQUER


Tem dias que a minha alergia do universo contamina minha alegria, conspira contra o meu otimismo, tem dias que o calor derrete sentimentos, aquece ressentimentos, tem dias que nem é bom falar, mas é bom gritar, jogar o silêncio no ventilador e deixá-lo se espedaçar.
Nem todas as palavras do mundo poderiam traduzir o que sinto em ralação a vida, é indescritível, seria ridículo dizer que tenho ódio, raiva, amor ou tesão, nenhuma dessas palavras refletem a ilusão, a angustia, o mergulhar no nada quando caio no abismo infinito da vida sem gritar.
Tem dias que a música penetra em meus ouvidos sem pensar, tem dias que minha razão é mais louca, minha voz é mais rouca, minha paixão é mais segura, meu amor é uma revolução. Tem dias que me sinto fora desse lugar, sem espaço para habitar, isso não é tristeza, não falta alegria, nem verdade posso afirmar com certeza, no fundo é a dúvida que dá brilho a esses pensamentos.
Minha vizinha chega tarde da faculdade, ouço arrumando seu apartamento, fazendo seu jantar, não ouço risadas, choro, telefonemas, parece que essa moça de cabelos loiros e mistério latente também está deslocada nesse universo, nessa coisa caótica que teimamos em organizar mentalmente.
A ópera, a morte, trombetas demoníacas, cores vivas, dicas televisivas, amo o que não entendo da vida, não entendo nada, mas vivo, sinto, me jogo no ar, respirar é mesmo uma aventura. Tem dias que não sei o que sinto, o que penso, não sei o que sei, mas sei que escrevo sem saber o que deveria saber um sábio qualquer.

terça-feira, 3 de abril de 2012

SEM DIREÇÃO


Dirijo, a noite encobre meus desejos, meus sonhos, os mais belos, os mais coloridos, os mais indecentes. Vozes roucas penetram em meus ouvidos, dirijo. Músicas sacanas, óperas escaldantes, pop, brega, rock, o inferno e o céu, tudo embala a noite, essa cortina negra romântica, sombria, sem medo, sem perdão. Dirijo.
Ela não está lá, eu a via todos os dias passando no mesmo lugar, seu sorriso, sua pele refletindo meu tesão, meu olhar cheio de angustia sobre o mundo, essa noite quente, ela não apareceu, perdi a oportunidade, não vou mais vê-la, dirijo.
O grito, munições voam de um lado para o outro, sangue, pessoas chorando, o fogo, apocalipse agora, essa noite, acordo, o sangue escorre em minha imaginação, em minha frente vejo um corpo, esse não é um soldado, estava na guerra, agora estou na batalha do submundo, da marginalidade noturna, dirijo, polícia, prostitutas, boêmios, lésbicas, todos os charutos, passeio por cantos mórbidos, por lugares luminosos, alegrias desdentadas, carros desgovernados, dirijo.
Essa noite fui ao centro do universo, entre no estômago do monstro, sai sem rumo, sem destino, apenas uma direção a tomar, a primeira que aparecer. Sigo rumo a algum lugar, chego em algum lugar, não quero saber, sem itinerário, dirijo, subo com meu carro pelo tapete asfáltico, dirijo mergulhando no nada, no vazio de minha alma, dirijo, dirijo, dirijo...